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Friday, July 11, 2008

Virtual Realidade Parte 144


O vento sussurrava através da vegetação do inverno e as ondas do mar rugiam ao longe num despique continuado para ver aquela que mais depressa chegava ao areal da praia, em vagas paralelas sucessivas de espuma branca.

Da sua varanda, debruçada sobre o gradeamento, enquanto bebia o café matinal, Luísa observava as gaivotas distantes no deserto da extensão arenosa e pensava que em breve deixaria tudo aquilo que amava havia tantos anos, para ir viver o amor de Eduardo lá longe na casa dele.

Jamais se desfaria daquela casa que passaria a ser a de férias, onde juntaria a família toda, algumas vezes durante o ano. Com a A17, a abrir brevemente, não seria já tão longe assim e não a preocupava muito a troca, embora se sentisse invadida por alguma nostalgia, uma vez que ali passara alguns dos melhores dias da sua vida e àquela casa estavam ligadas as gratas recordações da infância da filha.

Um som da campainha interrompeu-lhe bruscamente a contemplação e, sem perceber de onde vinha, pôs-se à escuta. Nova campainhada soou e era, afinal, à sua porta que tocava alguém que tinha pressa de ser atendido:

─ Quem será a esta hora da manhã? ─ interrogou-se, dirigindo os passos apressadamente para a porta.

Ao abrir, a surpresa e a revolta apossaram-se de Luísa, que mal conseguiu dizer:

─ Mas o que é isso, em que estado tu vens, minha querida!

As lágrimas afloraram aos seus olhos, mas ela reprimiu-as deixando sair um grito indignado do fundo do peito:

─ Quem foi o sacana, o cobarde que te pôs nesse estado, minha amiga?

A amiga entrou a cambalear, os cabelos desgrenhados e marcas roxas no rosto, e Luísa puxou -a para si e abraçou-a suavemente contra o peito.

Cristina tinha sido brutalmente espancada e mal se conseguia suster de pé.

─ Não…sei como…conse…gui chegar…aqui. ─ gaguejou queixosa.

─ Estás uma lástima! Segura-te a mim e vem sentar-te. Respira fundo e acalma-te que comigo estás em segurança. Vou buscar-te um copo de água.

Passados uns minutos, sentada ao lado dela, segurava nas mãos de Cristina.

─ Já percebi quem foi, mas assim que puderes conta-me tudo, por favor! Vais deixar imediatamente esse bruto do teu marido e ficas cá em casa o tempo que for preciso. Foi ele, não foi?

─ Foi. ─ confirmou Cristina num gemido.

A voz da amiga era monocórdica, sem vida, o rosto inexpressivo.

─ Tu não estás bem e antes de mais nada é preciso tratar de ti. Vou levar-te ao hospital.

─ Isto passa com uns cremes.

─ Não, vamos ao hospital e apresentamos queixa na polícia com as provas que pudermos fornecer. Isto tem de acabar de uma vez por todas e tu precisas de ser protegida desse bandido. Quem decide sou eu que tu não estás em condições. Não fazes ideia de como me corta o coração ver-te nesse estado! Se eu pudesse matava aquele gajo!

Luísa dizia aquilo num desabafo de revolta profunda porque sabia que nem uma mosca, por muito que a incomodasse, seria capaz de matar.

─ Mas eu não quero que se saiba!

─ Nem mas nem meio mas! Por ti própria e por todas as mulheres do mundo que sofrem de violência doméstica, temos obrigação de denunciar o caso. Vamos imediatamente ao hospital que precisas de ser observada! Depois contas-me tudo. Deixa-ma só vestir qualquer coisa.

─ Não ias para casa do Eduardo?

─ Ia mas já não vou. Depois ligo-lhe. Agora a minha preocupação és tu e não te vou deixar nesse estado, não te incomodes comigo.

Perante a determinação da amiga, Cristina sorriu conformada e partiram rumo ao Hospital de Leiria. Durante o trajecto foi narrando o que tinha acontecido:

Acordei pelas seis horas da manhã e lembrei-me que não tinha tomado a pílula à noite. Levantei-me e fui à cozinha buscar um copo de água. Quando passei pelo escritório vi a luz acesa. Empurrei a porta devagarinho e o Victor estava a falar ao computador. Aproximei-me para poder perceber melhor o que ele estava a dizer e deixei-me ficar ali quieta a tentar ouvir; depois de alguns minutos fiquei a saber que se tratava de negócios sujos. Quando ele me pressentiu ficou transtornado, histérico e começou a gritar para eu desaparecer dali.

Cometi a asneira de o enfrentar, acusando-o de negócios ilícitos. Foi aí que ele me começou a bater ameaçando-me que, se algum dia o acusasse ou testemunhasse contra ele, me matava. Bateu-me várias vezes na nuca, no rosto e em vários lados.

─ Isto é apenas uma pequena amostra daquilo que sou capaz de te fazer, por isso toma cuidado! ─ dizia ele enquanto me batia.

Uma bofetada mais forte com as costas da mão, atirou-me ao chão. Creio que acabei por desmaiar. Acordei há pouco deitada na minha cama e consegui arrastar-me até tua casa sem saber como.

─ Podias ter telefonado que eu ia buscar-te, querida!

─ Ele cortou o telefone fixo e quebrou-me o telemóvel para que eu não pudesse pedir auxílio.

─ Que grande estupor! Estavas sozinha em casa?

─ Sim, o Daniel tinha ficado em casa do namorado.

─ É um monstro perigoso, um doente psicopático. Temos de ir à polícia depois do hospital, Cristina!

─ Se neste momento fizer queixa isso não pode atrapalhar todo o processo da polícia? Temos que ser cautelosas. Afinal, em breve será apanhado e depois já ficarei livre dele.

─ Mas isso dar-te-ia mais um motivo de peso para exigires o divórcio e não acho que atrapalhe o outro processo da polícia. Vamos primeiro cuidar de ti e depois pensamos melhor nisso.

─ Quero pedir-te que, se contares ao Eduardo, o Rui não venha a saber nada disto. Receio que pudesse fazer uma asneira e não resolveria nada.

─ Sim, tens razão! Ao Eduardo vou ter de dizer.

Durante o atendimento médico, Cristina reviveu tudo ao contar o que lhe tinha acontecido. Precisou de fazer alguns exames para saberem se não havia lesões internas mais graves.

Luísa que a acompanhou sempre, pediu que lhe dessem provas do que a amiga tinha sofrido para apresentar na polícia.

Um pouco mais tarde, enquanto esperavam pelo relatório médico, sentadas na sala de espera das urgências, Luísa ligou ao namorado:

─ Bom dia, amor!

─ Olá, bom dia! A telefonares-me logo de manhã?!

─ É que surgiu um contratempo e não vou poder ir.

─ Então?!

Em poucas palavras, pô-lo ao corrente do que tinha acontecido com a Cristina. Eduardo ouviu-a atentamente e depois resumiu o que Sara lhe tinha dito, sobre o que estava combinado para os próximos dias, e que tudo indicava que o Victor iria ser preso.

─ Sim, deves ficar com ela.

─ Outra coisa, estou a tentar que apresente queixa na polícia, o que achas?

─ Acho que deve fazê-lo sim, vê se a convences! E leva-a para tua casa por uns dias até tudo se resolver.

─ Ok, obrigada pelo teu apoio e não contes nada ao Rui, por favor!

─ Fica tranquila que nada lhe direi.

Despediram-se prometendo estarem juntos o mais breve possível e em contacto permanente.

Depois de desligar, viu o doutor Miguel de relance a passar pelo corredor e correu atrás dele.

─ Doutor Miguel, desculpe!

Ele virou-se ao chamamento dela e sorriu quando a reconheceu:

─ Luísa, o que faz aqui, está doente?!

Depois de se cumprimentarem, Luísa explicou o que se passava e pediu que fosse saber do relatório.

Pouco depois ele apareceu com um envelope que lhes entregou.

─ Obrigadas, doutor!

─ Ora, de nada! Felizmente os exames não acusaram lesões internas, mas deve apresentar queixa às autoridades; e aqui mesmo no hospital eles têm um posto para tomarem conhecimento dos atendimentos de urgência que tenham tido origem em actos criminosos. Será bom também, não ficar sozinha em casa com o marido.

─ Ela ficará em minha casa, mas antes vamos apresentar queixa.

O telemóvel do médico começou a tocar e pediu licença, retirando-se um pouco para o lado.

─ Era a minha tia Sara. Eu disse-lhes quem estava aqui comigo e ela mandou beijos para as duas.

─ Por falar na tia Sara, precisava do contacto dela se pudesse ser, quero elogiar-lhe o último romance.

─ Pois não, ficará muito feliz!

Depois de lhe dar o contacto, acrescentou que iria passar a sua próxima folga com Sandrine a Lisboa.

─ Estou cheia de saudades dela e mando-lhe um beijinho.

─ Será entregue.

─ Tenho a certeza disso! ─ retrucou Luísa com um sorriso intencional.

Cristina, cabisbaixa, mantinha-se calada.

─ Agora vamos, doutor! Obrigadas e quando quiser, já sabe, apareça lá em casa.

─ Obrigado eu, e que tudo corra bem! Alguma coisa, liguem-me.

Miguel ainda fez mais algumas recomendações e despediram-se.

Continua...

9 Comments:

Blogger tb said...

Mais um bom pedaço de uam realidade que infelizmente de virtual nada tem.
Gostei. .)
Beijinho

9:38 pm  
Blogger soli-arte said...

Mais uma vez somos confrontados com um realidadedo do dia a dia mas que tanta vez anda camuflada.E a primeira reacção da Cristina também foi essa.
Ainda bem que foi ter com a Luísa,há necessidade de mais "Luísas" na sociedade.
Beijos
Soli

12:22 pm  
Blogger Papoila said...

Muito bem abordado aqui este flagelo quotidiano de muitas mulheres e felizmente que a Cristina tem uma amiga como Luísa!
Beijos

9:29 pm  
Blogger rainbowsky said...

Há um que não vinha aqui, e sempre que vim nem comentei. Desta vez tb não o farei pelo texto, porque confesso que não li... mas continuem! Sei que ha quem aprecie mais do que eu aquilo que vocês escrevem aqui. E que apesar de saber que tem qualidade, nã faz o meu género de leitura.

1:44 pm  
Anonymous In Loko said...

Embora estas cenas de violência doméstica estejam a diminuir um pouco continuam amiúde acontecer bastante! O tema é sempre de relembrar e foi boa ideia tê-lo apanhado e desenvolvido.
E como tudo indica lá vai o bandidola pra pildra né... é bem feita!!!
Pois, Luisa anda um bocado nostálgica, é natural, as raízes estão naquela casa e lugar, mas como o amor sabe compensar tudo será mais fácil do que parece.

Mais um bom capítulo amigos e sobretudo, nunca me canso de o dizer, muitíssimo bem escrito!!!

Beijinho e abraço.

5:57 am  
Blogger Miguel Augusto said...

Confesso que foi algo que sempre me fez imensa confusão é a violência! Infelizmente uma triste realidade social à escala planetária!

10:13 pm  
Blogger maresia_mar said...

Olá amigos

Vim mesmo de fugida, só a deixar um beijo com muito carinho.
Bom fds

10:09 am  
Anonymous Azoriana said...

Parte 144 - Cristina é agredida pelo Victor

12:26 am  
Blogger lena said...

olá meus amigos

este capítulo é a mais pura aproximação à realidade

ainda bem que as autoridades vão tomar conta da ocorrência

felizmente que a Cristina não teve lesões graves, ficam as psicológicas que talvez doam mais em certos aspectos

que bom a Luísa estar, uma mão amiga faz falta em muitos momentos e uma vez mais a solidariedade e a amizade foram presença

fico feliz por vos ler, mesmo quando o episódio que relatam tenha sofrimento ou dor

muito bem descrita cada passagem, com a sensação que visualizava enquanto vos lia.

custou um pouco sentir, não sentindo, pois sei que tudo isto acontece

o meu abraço terno e doce, onde o carinho e a amizade moram

beijinhos aos dois

lena

2:17 pm  

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