Esta história, sem grandes pretensões, irá continuar, esperamos, em publicação impressa, em tempo a anunciar aqui futuramente.
Luísa, Eduardo, Mariana e companhia, deixam assim o contacto com os leitores deste blog, aos quais agradecemos o carinho e as dicas que nos estimularam e ajudaram a aprender e a tentar melhorar a escrita na medida das nossas possibilidades.
Começámos a publicar quando apenas tínhamos completado meia dúzia de capítulos, sem sequer termos um plano definido que nos apontasse o rumo, mas conseguimos chegar a um termo que nos parece razoavelmente aceitável.
Sem grandes pretensões à partida, achamos que excedemos as nossas melhores expectativas em termos de divertimento e aprendizagem.
Foram 3 anos em que partilhámos a nossa amizade com muitos de vós, a quem não esqueceremos, se não pelo nome e pelo rosto, pelo nick e pela alma.
A nossa intenção é tentar a publicação em livro, com novo acrescento à história que assim ficará mais completa.
Iremos, especialmente, seguir no rasto de Francisco e de Rita e dar ao Eduardo a possibilidade de se relacionar mais de perto com crianças, permitindo-lhe pôr em prática os seus conhecimentos de psicologia infantil.
Qualquer novidade relacionada, será, naturalmente, noticiada neste blog.
Um grande abraço de amizade e carinho a cada um(a) dos(as) nossos(as) leitores(as)!
─ Eu sei muitas coisas a teu respeito, Mariana! ─ respondeu, começando a tratá-la familiarmente por tu.
─ Como assim se nunca nos vimos pessoalmente? Eu conheço-o porque o vi em fotografias que o meu filho levou para Pamplona que é onde eu moro. O senhor conheceu o Francisco em casa de Luísa, porque ele veio aos anos da namorada que é filha da Luísa.
─ Pois foi. É natural que não me reconheças porque estou mais velho e, naquele tempo, não usava barba, mas conhecemo-nos há muitos anos.
Mariana começou a tremer porque o timbre daquela voz começava a impor-se-lhe com a evidência das recordações do passado.
─ Há muitos anos… Não pode ser, não posso acreditar, ─ balbuciou perplexa. ─ tu és o Eduardo…?!
─ Olha bem os meus olhos! ─ pediu pegando-lhe docemente na mão ─ sim, eu sou o Eduardo que tu amaste, o Eduardo que te amou e quase morreu de desgosto quando tu desapareceste.
Congelada na sua frente, com o olhar perplexo como se tivesse acabado de ver um fantasma, Mariana reviu na sua mente todo o horror por que havia passado.
Eduardo teve o impulso de a segurar porque lhe pareceu que ela ia desmaiar e cair no chão desamparada, mas, ao estender os braços para ela, Mariana, com os olhos voltados para o chão, conseguiu dizer:
─ Eu também ia morrendo!
Eduardo abraçou-a e as lágrimas caíam pelos rostos de ambos, indiferentes às crianças que jogavam a bola e eram, no momento, os outros utilizadores daquele espaço. Um dos pequenos jogadores foi beber água e ficou parado a olhá-los como um pardalito admirado que nunca tivesse visto gente grande a chorar.
─ Anda daí jogar! ─ chamou o colega de equipa, vendo que ele se demorava.
─ Desculpa, estou todo transpirado de correr e tu tens o perfume do meu amor de há muitos anos atrás! ─ exclamou Eduardo, apartando-se dela.
─ Num momento como este, quem se importaria com isso? Tu és mesmo o Eduardo!
─ Pois sou! ─ respondeu a sorrir, ao mesmo tempo que tentava descobrir em si o que ainda sentiria por ela.
─ E agora?
─ Agora temos muitas coisas a esclarecer, mas eu tenho de ir tomar um banho quente e mudar de roupa antes que arrefeça. Vem comigo que depois levo-te a casa.
─ Vim sozinha porque a Sara estava a dormir. Tenho de a avisar!
─ Eu ligo-lhe!
Eduardo marcou o número e a irmã atendeu:
─ Eduardo, que se passa?
─ É só para te dizer que esqueças o plano para eu me encontrar com a tua irmã.
─ Ah sim, porquê, mudaste de ideias?
─ Não, mas já não é preciso!
─ Como assim?
─ Ela encontrou-me e está aqui comigo.
─ E eu não assisti ao vosso encontro. Espero que tenha corrido bem!
─ Sim, correu, está a correr muito bem. Foi uma feliz coincidência, depois contamos-te. Andei a fazer um treino na praia e agora tenho de ir a casa tomar banho. A tua irmã vai comigo e depois vamos buscar-te para irmos jantar fora os quatro, está bem?
─ Está óptimo, mas é os cinco, se não te importas, que o Miguel já chegou.
─ Perfeito! Esperem por nós então. Até já.
─ Pronto, vamos? ─ perguntou Eduardo a Mariana quando terminou a chamada.
─ Vamos.
─ Sabes, há uma coisa que preciso de saber com verdade e gostaria que mo dissesses. Há uns tempos surgiram-me umas suspeitas e não tenho conseguido parar de pensar no assunto desde então ─ disse Eduardo a caminho da casa de Luísa.
─ E que é…
─ O Francisco é meu filho?
─ Sim, é! ─ respondeu ela sem hesitação.
Eu tinha quase a certeza, mas precisava da tua confirmação. Gostei muito dele e senti que havia alguma afinidade entre nós.
─ Sim, é um bom menino, o teu filho, o nosso filho! Sabes, ao mostrar-me as fotografias ele falava de ti com muita admiração! Vocês devem ter conversado muito.
─ Sim, falámos bastante. Obrigado, Mariana, não podes imaginar como me sinto feliz!
─ Também eu de te ter encontrado, e então o Francisco quando souber... Eu sempre lhe falei de ti como uma pessoa muito querida e um dia ele disse-me assim: «Quando terminar o meu curso, a primeira coisa que farei é procurar o meu pai.» Se pudesse adivinhar que já o encontrou e que esteve tão perto dele…
─ É verdade! Tenho de ir a Pamplona dizer-lho pessoalmente.
─ Claro que virás!
Mariana calou-se, por momentos, muito emocionada e depois disse, um pouco timidamente:
─ Já sei que não estás sozinho…
─ Esperei tantos anos por ti, procurei-te por todo o lado… ─ explicou como que a desculpar-se de não ter esperado mais, por ter perdido a esperança de a voltar encontrar e não saber se ela ainda o amava.
─ O mundo separou-nos e não quis que nos voltássemos a unir. Sabes, também tenho alguém que amo e com quem vivo há algum tempo.
─ É bom saber isso e que és feliz. Eu também sou feliz com a Luísa.
─ Ainda bem, mas o Francisco será sempre o nosso filho, o filho do amor que um dia tivemos um pelo outro.
─ Certamente! Chegámos, é aqui a casa da Luísa.
Eduardo tocou a campainha e a namorada veio abrir.
─ Sim, sei quem é! É demasiado parecida com a Sara para eu não adivinhar!
As duas mulheres beijaram-se e Mariana disse a sorrir:
─ É muito bonita, o Eduardo tem muito bom gosto!
─ Pelos vistos sempre o teve! ─ respondeu Luísa, devolvendo o elogio. ─ Vamos entrando!
─ Olha, amor, guarda as batatinhas que vamos comer fora. Conversem um pouco enquanto vou ao meu banho; a seguir vamos buscar a Sara e O sobrinho. ─ disse Eduardo radiante.
─ Vem comigo que vou mudar-me. ─ pediu Luísa tomando, familiarmente, a mão de Mariana e arrastando-a até ao quarto. ─ Gosto do Francisco como se fosse meu filho e estou muito feliz de te conhecer.
─ A Rita também é como se fosse minha filha, gosto muito dela! ─ respondeu Mariana.
Depois de um breve silêncio, enquanto enfiava um vestido pela cabeça, Luísa disse:
─ Desculpa mas tenho de te falar uma coisa!
─ Imagino que estejas preocupada pela minha presença aqui. Vamos estar unidas por laços de família e ser amigas com certeza, por isso não receies falar. ─ convidou Mariana com um sorriso franco, deixando a outra muito à vontade.
─ Eu sei tudo sobre o Eduardo e o relacionamento que teve contigo. Ele é o pai do Francisco, não é?
─ Sim, é! Disse-lho há pouco.
─ Ah!
─ Amámo-nos muito sim, mas as circunstâncias da vida não nos permitiram mais do que os breves momentos em que originámos o nosso filho. Fica tranquila que neste momento apenas nos resta uma grande amizade e eu também já tenho outra pessoa na minha vida.
─ Compreendeste-me bem, obrigada! ─ agradeceu Luísa a sorrir. ─ Como achas que me fica este vestido?
─ Belissimamente, pareces uma rainha!
─ Vamos então?
─ Vamos!
Epílogo
Eduardo, que já as esperava, viu as duas mulheres saírem de braço dado do quarto de Luísa e, erguendo-se do sofá, envolveu-as no mesmo abraço dizendo:
Embora os nicks sejam nicks que existem ou existiram no IRC, a história que vai a seguir é uma obra de ficção. Não deixa, no entanto, de ir beber à experiência que os seus autores têm da Internet Relay Chat a água da sua inspiração. É com base nisso que agradecemos a todos quantos, frequentadores do IRC, inconscientemente, ajudaram, com tudo o que disseram, a escrever este texto. Aqui devolvemos, de certo modo, aquilo que nos deram. Apesar de acreditarmos que através desse meio de comunicação se conhece o âmago psicológico das pessoas antes de lhes conhecermos o rosto, apesar das falsidades muitas vezes presentes, nunca deixamos de ser prudentes na avaliação daquilo que qualquer relação virtual nos pode trazer. Obrigados a todos!
─ Precisas, certamente, de descansar antes de mais nada. ─ disse Sara, como quem pergunta sabendo antecipadamente a resposta, depois de o sobrinho as deixar em casa e abalar para o hospital e de Mariana ter ligado para casa a dizer que tinha chegado bem.
─ Sim, seria melhor. ─ confirmou Mariana. ─ Ai, estou tão feliz de te tornar a ver, minha querida irmãzinha!
─ Então podes avaliar o que eu sinto! ─ exclamou Sara abraçando-a emocionada.
─ Tenho muitas coisas para te contar. Toda a minha vida neste intervalo de tempo.
─ Também tenho algumas. Vamos deitar-nos lado a lado, de mãos dadas, Menina do Campo e Princesa dos Patos, como fazíamos quando éramos meninas, e falamos. Também necessito de repousar um pouco.
─ Depois quero que me leves a dar uma volta aqui pela terra.
─ Sim, claro, temos todo o tempo do mundo, agora que estamos de novo juntas e que nada nem ninguém, nos pode separar!
Deitadas na cama que Sara costumava ocupar quando permanecia em casa do sobrinho, Mariana resumiu o que tinha sido a sua vida depois de deixar a casa dos pais, até ao desaparecimento do casal espanhol que a havia acolhido, e acabou por adormecer.
A escritora continuou acordada, olhos fixados no tecto, ouvindo o respirar tranquilo da irmã e tentando imaginar como correria o encontro com o passado a que em breve a conduziria.
Suavemente, para não a acordar, retirou a mão que a da gémea segurava, e saiu da cama. Dirigiu-se à cozinha, bebeu um copo de água e saiu para o jardim levando o telemóvel. Eduardo aguardava notícias.
─ Olá, meu querido! Chegámos bem, já a cá tenho. Adormeceu na minha cama ao contar-me o que foi a vida dela.
─ Quando vêm cá?
─ Ainda não combinámos nada, mas penso que hoje será para descansar. Tenciono levá-la logo a jantar fora, naquele restaurante sobre a praia, o Paraíso Liz, que tu conheces também, se ela concordar.
─ Sim? Tenho uma ideia! E se eu fosse lá jantar com a Luísa só para a ver de longe?
─ Não sejas impaciente, não me parece uma boa ideia, tu sempre tão sensato! Já imaginaste que se ela vos visse e reconhecesse, lembra-te que viu fotos tuas e da Luísa em Pamplona, acharia estranho que não nos viessem cumprimentar? Não é melhor encontrarem-se em casa da Luísa?
─ Tens razão, que tontinho da cabeça! ─ riu Eduardo ─ É a minha impaciência.
─ Tem calma, rapaz, que já faltou mais!
─ Terei, obrigado, amiga! Quando tiveres combinado com ela, avisa. Nós estamos preparados.
─ Avisarei. Até logo!
─ Até logo.
Sara sentou-se numa cadeira, de um conjunto de quatro e uma mesinha de jardim, de ferro fundido pintado de branco, a condizer com a casa, que um dia achara que fazia ali falta e oferecera ao sobrinho, para servir de pouso nos dias lisos e amenos, a contemplar o exterior, como metáfora de extroversão, ouvindo o canto dos pássaros saltitando entre os ramos das árvores e ali permaneceu a olhar quem passava, mas com a atenção voltada para os seus próprios pensamentos.
Viajou pela infância, a cumplicidade da irmã nas relações sérias com o mundo dos adultos ou nas brincadeiras e nos jogos que faziam com as outras crianças, sempre em defesa uma da outra, unidas, como se fossem uma só, até que a necessidade as obrigara a separarem-se. Foi como uma cirurgia dolorosa, sem anestesia, a separar os dois coraçõezinhos até aí habituados a bater em uníssono, ao ritmo da mesma alegria de viver.
Muito tempo decorrera, mas Sara ainda sentia a angústia daquela separação. E fora essa angústia que um dia a levara a escrever. A escrita era a sua libertação e também o protesto contra um mundo cruel e injusto, um mundo que os homens haviam construído a expensas das mulheres e contra elas.
Não era feminista porque achava que o feminismo mais não era do que as mulheres quererem substituir-se aos homens, continuando a gerir os destinos da humanidade do mesmo modo que eles, e ela queria algo de novo em que as mulheres tivessem um papel determinante, mas de acordo com as suas próprias regras.
O reaparecimento de Mariana começava a cicatrizar-lhe a ferida, mas vinha recordar-lhe também que ainda não tinha expelido o último grito de revolta.
Levantou-se e foi ter com a irmã ao quarto. Mariana ainda dormia e Sara, de mansinho, deitou-se ao lado dela a pensar em Eduardo, acabando por adormecer também.
─ Oh amor, porque não vais correr um pouco na praia? Nunca te vi tão agitado, tu gostas e acho que te faria bem. ─ sugeriu Luísa ao ver o namorado ansioso, andando de um lado para o outro na casa, algum tempo depois do telefonema de Sara.
─ Tens razão, acho que vou fazer isso mesmo, desculpa!
─ Não peças desculpa, eu entendo-te! Estás à beira do encontro com uma parte muito marcante do teu passado, é natural que estejas assim.
─ Obrigado pela tua compreensão, doçura! ─ agradeceu dando-lhe um beijo.
─ A minha compreensão é amor, meu tontinho, não precisas de agradecer, e o beijo só será bem recebido se for também de amor e não de agradecimento! ─ respondeu Luísa a sorrir.
─ Então recebe-o dignamente, sem receio! ─ retrucou Eduardo também a sorrir.
─ Vai lá enquanto adianto o jantar que daqui a pouco é noite!
─ Vais fazer aquele bacalhau…
─ Vou fazer aquele bacalhau, mas só começarei quando regressares. Para já, apenas descascarei as batatas. Leva o telemóvel, pode acontecer alguma coisa!
─ Não levo sempre?
Eduardo envergou um fato de treino leve, calçou os ténis apropriados para correr e saiu levando o aparelho consigo. Caminhou até ao farol onde fez ligeiro aquecimento e começou a correr pelo passadiço, de madeira de pinho tratada, na direcção do sul. Sempre a correr, depois de um troço de asfalto desceu à praia e continuou na direcção das piscinas. A maré baixa permitia uma maior extensão de areal e a areia molhada junto à água fornecia o piso adequado para o treino.
Mariana acordou com o peito tão repleto de plenitude que lhe apeteceu sair para a rua de mão dada com a irmã e gritar: «Estou feliz!»
Olhou para o lado e viu Sara adormecida com uma expressão de serenidade que lhe revelava a profundidade do sono.
Mas tinha de sair para a rua, mesmo sozinha, porque a felicidade que sentia não era passível de ficar contida nos limites do corpo e da casa. Como uma amiba, necessitava de estender para o mundo os seus pseudópodes em todas as direcções.
“S. Pedro de Moel também não é tão grande assim, não me perderei; e depois será giro descobrir a terra por minha conta e risco. Vai fazer-me bem esta pequena aventura. Vamos lá!”, pensou Mariana a sorrir por dentro, saindo da cama discretamente.
Vestiu-se com simplicidade protegendo-se contra o frio e escreveu um bilhete à gémea depositando-o ao lado dela sobre a cama.
Perto da zona das piscinas, Eduardo, já transpirado, voltou para trás e dirigiu-se para a saída da praia tomando a praça onde havia uma fonte. A intenção de beber um pouco de água levou-o a abeirar-se da bica onde uma senhora estava debruçada na mesma necessidade de se abastecer. Aguardou a vez e, quando ela, dessedentada, ergueu o tronco e se voltou preparando-se para abandonar o local, admirado viu-a parada na sua frente, os olhos muito abertos como se o reconhecesse, e ouvi-a dizer:
─ Desculpe, parece-me que o reconheço, não se chama Eduardo?
─ Sim, é o meu nome.
Num flash, Eduardo notou que era muito parecida com Sara e perguntou:
─ Mariana?
─ Sim, mas como sabe o meu nome? ─ perguntou admirada.
A chuva começou antes mesmo de amanhecer. Veio juntamente com um vento travesso e inquieto que fazia estremecer o carro que rolava na auto-estrada rumo ao aeroporto da Portela.
Sara fechou os olhos e forçou a mente a sair, por momentos, da tempestade que assolava a região, e a regressar ao plano do encontro entre a irmã e Eduardo.
Rita já fizera saber à mãe que Mariana gostaria muito de a conhecer e tencionava aproveitar a estada em Portugal para a visitar e Sara levá-la-ia lá a casa onde Eduardo se encontraria também.
Já no aeroporto, Sara e o sobrinho aguardavam ansiosamente pelo avião que não tardaria a pousar na pista. A escritora não parava de olhar o painel electrónico fazendo a contagem decrescente dos minutos que faltavam para terminar o tempo em que estivera sem saber da irmã. Era como se aquela aeronave que, em breve lhe colocaria a sua querida e saudosa Mariana nos braços, viajasse, não entre dois espaços perfeitamente definidos da superfície da terra, seguindo uma trajectória prevista e controlável, mas entre dois momentos no tempo, separados por muitos anos, sem que nenhuma delas tivesse podido prever a que destino chegaria.
A contagem terminara e o quadro avisou que o avião tinha acabado de aterrar.
Sara, suspirou de alívio, apertando com força o ramo de rosas brancas que tinha na mão, mas ainda teriam de esperar alguns minutos até que os passageiros começassem a sair do ventre do aparelho.
─ Tia, tem calma e respira fundo, ─ aconselhou o sobrinho passando o braço pelos ombros rígidos da escritora. ─ daqui a nada ela estará aí!
Aqueles breves minutos pareceram-lhe uma eternidade mais longa e difícil de atravessar do que todo o tempo em que estivera separada da gémea.
Finalmente, passageiros daquele voo começaram a sair e, entre eles, destacava-se uma bela mulher de meia-idade, vestida com simplicidade, mas em desacordo com o tempo que fazia em Lisboa e que ela não tinha previsto. Exibia uma profundidade inquieta no movimento dos seus belos olhos acinzentados, percorrendo o espaço envolvente, como se procurasse ansiosamente alguém que receasse não encontrar.
─ É chegado o momento. ─ disseSara baixinho, puxando o sobrinho e dirigindo-se para a passageira, ainda longe, em quem lhe pareceu haver reconhecido a irmã.
Assim que ficaram próximas, uma instantânea troca de olhares bastou para se reconhecerem e logo caírem nos braços uma da outra com os olhos a derramarem-se em cascatas de alegria.
Nenhuma palavra poderia traduzir o que as duas gémeas, após tantos anos de separação, sentiram naquele momento.
Miguel, ao fim de alguns minutos, esquecido de ambas no meio do movimento do aeroporto e sentindo que ainda levariam muito tempo a apartar-se, ousou interromper aquele abraço dizendo a sorrir:
─ Então, eu também quero abraçar a minha reaparecida tia.
O telefone de Sara manifestou-se e ela afastou-se alguns passos para atender a chamada.
Do outro lado apercebia-se excitação de Eduardo.
─ Bom dia Luísa! Sim acabou de chegar, está tudo bem, finalmente juntas!
Despediram-se com um até breve.
─ Era a Luísa, mãe da Rita, a querer saber se já tinhas chegado. ─ disse Sara com um sorriso enigmático.
Mariana e o sobrinho, a conversar, nem ouviram o que a escritora tinha dito.
─ Tia?! ─ perguntou Mariana admirada, olhando aquele homem novo, de rosto afável, sorriso largo, por cima do ombro da irmã, como se só naquele instante se tivesse apercebido da presença do estranho.
As gémeas soltaram-se e Sara, virando-se para trás e limpando as lágrimas fez a apresentação:
─ Não te lembras do Miguelito?
─ O filho do nosso irmão Manuel?
─ Ele todo!
─ Lembro-me muito bem, mas não o reconheceria, naturalmente. Dá cá um abraço, meu menino!
Tia e sobrinho abraçaram-se e beijaram-se com profunda emoção.
─ O nosso menino é médico e exerce no hospital de Leiria.
─ E primo do meu Francisco, mas vocês já se conhecem!
─ Conhecemos, mas não sabíamos que éramos primos. Vamos indo, minhas queridas e adoráveis senhoras, falam pelo caminho?
─ Mas que cavalheiro! Sim, sim, vamos!
─ Se não fossem minhas tias, juro que me apaixonaria por ambas! ─ disse Miguel a brincar, transportando duas malas de Mariana e seguindo as irmãs que, de braço dado, caminhavam na sua frente.
─ Este rapaz não tem juízo! Quem sabe por quantas doentes não se apaixonou já?!
─ É capaz de ter saído ao pai! ─ disse Mariana a rir.
Já no carro:
─ Temos tanto de que falar… ─ suspirou Sara.
─ É verdade, muito mesmo!
Saíram do estacionamento e tomaram a via para apanhar a A8.
─ Para onde me vão levar?
─ Vamos para S. Pedro de Moel, para casa do nosso sobrinho.
─ Pensei que fossemos para tua casa!
─ Eu moro no Porto; onde ele mora é mais perto e mais bonito, vais adorar!
─ E não o incomodamos?
─ Claro que não! Será um prazer ter duas senhoras tão lindas em minha casa.
─ Mas que galanteador! ─ notou Mariana.
─ Vá, conduz e cala-te! ─ ordenou Sara. ─ Não lhe ligues! ─ disse para a irmã ─ Além disso ficamos perto da mãe da namorada do teu filho e eu já sei que a queres visitar.
─ Sim, gostaria de aproveitar para a conhecer. Tratas tão mal o nosso sobrinho! ─ riu Mariana.
─ Ele já sabe que é tudo a brincar e que se lhe falo assim é porque o adoro e ele a mim.
─ Mas que convencida me saíste, tia Sara! Para dizer a verdade, não gosto nada de ti!
─ O menino não volta a falar porque nós as duas temos muita conversa atrasada. Faz favor preste atenção à estrada e mais nada!
─ Ok, ok!
─ Sabes, quando reparei no Miguel, pensei que fosse teu namorado! ─ disse Mariana baixinho ao ouvido da irmã.
─ Oh, oh!
─ Já me disseram que és uma escritora bem sucedida.
─ Pode-se dizer que sim.
─ E isso dá para viver bem?
─ No início não, mas agora já dá. O prémio Nobel do Saramago, fez a atenção mundial virar-se um pouco para a literatura portuguesa e passei a estar traduzida em várias línguas com bastante tiragem. E os direitos para filmes e novelas…
Sem vaidade, mas feliz por isso, sou uma mulher famosa!
─ Estou a ver… Tenho de te ler, pois parece que só eu não conheço a minha gémea o que é muito triste e imperdoável! Vejo que tens levado uma vida feliz.
─ Profissionalmente falando, não me posso queixar, agora o resto…
─ Não há um amor na tua vida?
─ Bem, não quero falar disso agora. E tu?
─ Eu, minha querida?!
─ Sim, como tem sido a tua vida?
─ Um drama com final feliz, ah se tu soubesses…!
─ Quer dizer que foi má mas ultimamente as coisas melhoraram?
─ Sim, é isso mesmo!
─ Meninas, se me permitem, sugiro que guardem as confidências para mais tarde que está mais do que na hora de almoçarmos e eu estou com fome.
─ Lembras bem, qual é a tua ideia?
─ Convidar-vos para almoçar num restaurante aqui perto que tem um belo bacalhau assado na brasa. Serve?
─ Parece-me bem. Leva-nos lá então.
Saíram da A8 na zona de Torres Vedras e foram almoçar ao restaurante que Miguel conhecia.
Enquanto esperavam pela refeição, as duas irmãs continuaram o diálogo numa ânsia de recuperarem o tempo perdido.
─ E porque foi que se perderam uma da outra? ─perguntou o sobrinho ─Parece-me uma coisa estranha.
Em traços largos, Mariana explicou o que lhe tinha sucedido e que a irmã também só conhecia em parte.
─ Quer dizer que o Eduardo… ─ ia dizer Miguel, mas, a um sinal da tia Sara que só ele percebeu, calou-se bruscamente.
─ Eduardo… ─ disse Mariana para lembrar ao sobrinho que acabasse a frase.
─ Eu ia perguntar se nunca mais soubeste dele, mas já tinhas dito. ─ emendou apressadamente como pôde.
Sara, ficou a pensar que tinha sido um erro não ter contado ao sobrinho o que sabia sobre a irmã e aquele mesmo Eduardo que ele havia conhecido em casa de Luísa, e não o ter avisado para não tocar no assunto a fim de não estragar a surpresa dela quando o encontrasse.
─ Gostaria muito, quando fosse visitar a mãe da Rita, que o namorado também estivesse presente. ─ disse Mariana.
─ Sim, é natural que ele lá esteja, o mais certo, talvez! ─ respondeu a irmã, exagerando no tom a sem importância que dava àquela declaração, porque tinha presente que Mariana certamente vira fotografias de Eduardo, que lhe poderiam ter trazido reminiscências do passado, e poderia suspeitar de que fosse o antigo namorado.
Mariana notou a falta de interesse da irmã e fixou o olhar na sua pele avermelhada, explicando:
─ Sim, gostaria muito de conhecer o homem de quem o Francisco fala com muita admiração. Sei que vocês são amigos, ou será que sentes por ele mais do que amizade?
─ Não vai ser problema nenhum, o Eduardo está em S. Pedro de Moel; ainda ontem passei por ele antes de chegar a casa. ─ informou Miguel de rompante, metendo-se no dialogo entre as duas.
Salva pelo sobrinho, a escritora achou por bem mudar o rumo da conversa para não correr o risco de alguma inconfidência antes do tempo.
Quando chegaram a S. Pedro de Moel, foram saudados com um grande sorriso luminoso da bela tarde primaveril com que o dia, envergando já o seu traje festivo, os quisera mimosear, oferecendo-lhes uma recepção soalheira.
─ Para a próxima semana vou a Portugal ver a minha irmã! ─ começou por dizer Mariana, interrompendo a habitual troca de palavras sobre o dia de cada um quando, à noite, tinha a família reunida em casa e terminado o jantar. Rita e Francisco trocaram um olhar de entendimento e o filho aprovou a decisão da mãe: ─ Fazes muito bem, mamã. ─ Não imaginam como anseio pelo momento de a abraçar, mas não queria que sentissem muito a minha falta cá em casa! ─ Já somos todos bem crescidinhos, safamo-nos muito bem sem ti. ─ sorriu Juan. ─ Ah é?! E eu a pensar que irias ter saudades minhas, meu maroto! Os jovens sorriram aguardando o desfecho daquela troca de galhardetes amorosos. ─ Claro que terei, tontinha! Se pudesse iria contigo conhecer Portugal, mas também imagino que vocês as duas terão muito de que hablar e eu seria um… ─ como é que vocês dizem? ─ Estorvo. ─ acudiu Francisco. ─ Estorvo. ─ repetiu Juan. ─ Gostaria muito que tu fosses, embora tivesse de te deixar algumas vezes entregue a ti mesmo, porque eu e ela temos, realmente, muito que conversar. ─ Mas eu não posso por causa do trabajo, não te preocupes, vai e aproveita! ─ Nós ficamos bem, Mariana, podes ir tranquila. ─ reforçou o filho. ─ Quantos dias tencionas ficar lá? ─ Não sei ainda! Depende dela, porque vou trazê-la a passar cá uns tempos connosco. ─ Isso é óptimo! ─ concordou Francisco. ─ Filho, podes arranjar-me passagem de avião pela Internet? ─ Penso que sim! ─ Então trata-me disso, por favor, assim que puderes. ─ É para já! Ida e volta? ─ Só ida. No regresso viremos de comboio. Enquanto os três levantaram a mesa, Francisco foi ao computador e daí a pouco veio perguntar à mãe: ─ Terça-feira, com partida às dez e trinta para Lisboa, serve? ─ A hora é boa, mas não tem antes? ─ Não. ─ Serve perfeitamente, podes marcar. Vê quanto custa e como é o pagamento feito. Vou ligar à minha irmã.
─ Vamos tomar café lá fora? ─ perguntou Francisco à namorada, depois de tratada a passagem da mãe. ─ Podemos ir. Quando no patamar chamaram o elevador e este chegou abrindo a porta, esbarraram com Maria que regressava de fora. Francisco, cumprimentou-a, naturalmente, como se nada de extraordinário houvesse achado naquele encontro fortuito, mas a surpresa da rapariga foi tão grande que ficou ali, de olhos arregalados, virada para os dois sem saber o que dizer, apesar de muito habituada a todo o tipo de situações imprevistas que raramente a deixavam sem uma reacção adequada. ─ Olá, Maria, tudo bem? Nunca os tinha visto juntos nem sabia que se conheciam e, agora, vê-los de mão dada apanhara-a completamente desprevenida, coisa que acima de tudo detestava, não conseguindo de imediato encontrar uma resposta que lhe parecesse apropriada. Rita apertava na sua a mão do namorado como se receasse que a outra lho roubasse e balbuciou um cumprimento tímido. Quando conseguiu recuperar um pouco a presença, pela força do ódio que lhe ia na alma, por se ver ultrapassada na conquista de Francisco, Maria disse: ─ Com que então vocês os dois conhecem-se e estão de… e não me contavam nada! E dirigindo-se a Rita, acusou: ─ Minha sonsa, eu que sempre fui tua amiga! ─ Aconteceu há pouco tempo, ainda não tive ocasião de te contar, não sei porque é que isso te arrelia tanto! ─ explicou Rita, sem se alterar. ─ Arreliar-me, eu?! Quero lá saber com quem andas, que te faça bom proveito! ─ disse irritada, olhando de soslaio o namorado da amiga. ─ Foi isso que eu pensei, que não te interessaria muito saber, por tal razão não me apressei a contar-te nem achei que fosse necessário. Virias a saber por ti mesma em qualquer momento e esse foi agora. A estas palavras de Rita, proferidas com toda a calma e naturalidade, Maria ficou vermelha de cólera e sentiu ganas de se atirar à outra, mas a presença de Francisco, que se mantinha calmo a presenciar aquela troca de palavras entre as duas mulheres, conteve-a. ─ Só me arrelia não teres confiado em mim, afinal não éramos amigas? ─ Se deixaste de o ser por causa disto, a tua amizade não era grande coisa! Tu dizes-me tudo da tua vida logo em cima do acontecimento? ─ Nem um nem outro me disseram nada, tantas vezes que nos encontramos, ─ respondeu ignorando a pergunta ─ mas não perdem pela demora! ─ Era só o que me faltava! Vocês encontram-se muito? ─ perguntou Rita ao namorado, sentindo-se alarmar por dentro. ─ Trocámos cumprimentos e falámos duas ou três vezes por razões de vizinhança. ─ respondeu, com naturalidade, Francisco. ─ Esqueceste-te daquela vez em que estiveste na minha festa e dançaste comigo e… ─ E o quê? Se fui à tua festa foi para tentar acabar, de um modo civilizado, com o barulho que faziam e que nos impedia de dormir. Qualquer outro teria chamado as autoridades e não se teria incomodado. Acho que foi muito simpático da minha parte e mais ainda agora ter esquecido que estavas bêbeda como um cacho naquela noite. De que te queixas afinal? ─ ripostou ele com um sorriso calmo de quem tinha a consciência tranquila. ─ E tu aproveitaste-te de mim, de eu estar incapaz de me defender! ─ acusou Maria. ─ Aproveitei?! Devia ter aproveitado e dar-te duas palmadas no rabo, que era o que precisavas, se eu fosse de violências, ─ respondeu Francisco a rir ─ a ver se ganhavas juízo e deixavas de fazer aquelas festas ruidosas em casa! Maria, calada, deitava fumo por todos os poros e Rita perguntou: ─ Posso saber quando foi isso? ─ Foi numa festa que ela deu antes de nos termos encontrado, eu já te contei, amor. ─ Foi nos meus anos. ─ explicou Maria. ─ Sim, lembro-me, pois eu também estive nessa festa e não te vi. ─ Tinhas ido embora um pouco antes. ─ recordou Maria. ─ Eu contei-te depois, de um moreno que tinha curtido comigo. Era o teu namoradinho. ─ Pois tinha, ─ disse Rita ─ mas agora deste a entender que ele abusou de ti, como foi afinal? Maria gaguejou e ia enrolar uma explicação apressada, mas Francisco cortou-lhe a fala dizendo: ─ Vamos embora, amor, esta não presta, não merece a nossa amizade! Não se passou nada entre nós além de dois minutos de dança, e foi porque ela se agarrou a mim. Tudo o mais que ela disser é falso. Vamos? ─ Vamos, sim. Felicidades Maria! ─ disse Rita, estendendo a mão à outra que se absteve de retribuir, virando-lhes as costas a ferver de raiva, ruminando vinganças. ─ Ainda queres ir ao café? ─ perguntou Francisco quando ficaram sós ─ Já não me apetece muito.─ Eu acredito em ti, leva-me onde quiseres.
Como hipnotizada, Cristina ouviu a narrativa de Eduardo e Sara sobre a fatídica manhã em que Victor, o marido, perecera na perseguição policial.
O namorado, preocupado com a sua reacção, esteve o tempo todo abraçado a ela.
─ Lamento muito Cristina, ninguém aqui desejaria a morte a um ser humano, apesar dos crimes que cometeu! ─ disse Eduardo no fim. ─ Também não fiquei feliz com o que lhe aconteceu, mas quem comete actos ilícitos corre grandes riscos e a polícia fez o que costuma em casos semelhantes.
Fez-se um silêncio até que ela respondeu amargurada:
─ Eu também não culpo ninguém a não ser a ele mesmo. Obrigada a todos e desculpem-me, preciso de ficar um pouco sozinha!
─ Nem eu, amor? ─ perguntou Rui carinhosamente.
─ Sim, vem comigo, por favor!
Saiu da sala, como um ciclone num dia de grande tempestade em que o mundo parece desabar, o coração destroçado pela dor e revoltada pela submissão de tantos anos, tentando, em vão, evitar as lágrimas que lhe caíam pelo rosto.
Faltava ainda o Daniel tomar conhecimento do que se havia passado e não fazia ideia de como reagiria. Aquele canalha, mesmo depois de morto, ainda os fazia sofrer.
Entrou no quarto de rompante e deixou-se cair sobre a cama num choro convulsivo.
O namorado puxou-a a si e acariciou-lhe os cabelos suavemente dizendo-lhe palavras de ternura ao ouvido.
Lentamente, Cristina foi-se acalmando.
─ Dorme um pouco, deixa a tua mente descansar, que eu velarei pelo teu sono.
Enroscada ao namorado fechou os olhos e acabou por adormecer.
Num sono agitado, flutuava numa tempestade de flores.
─ Pobre Cristina! ─ desabafou Luísa condoída pelo sofrimento da amiga.
─ Em breve recuperará. O Rui é muito carinhoso com ela, viste como não a largou um momento?
─ Sim, ele ama-a de verdade!
─ E o filho, já sabe? ─ perguntou Sara.
─ Pois, o pior ainda está para vir. Não sei como vai ser a reacção do Daniel, quando souber. Ele já vem a caminho, estava em viagem com o namorado. Quem lhe vai dizer?
─ Ele sabia alguma coisa sobre aquilo em que o pai estava envolvido? ─ perguntou Eduardo.
─ Não, não sabia! ─ respondeu Luísa.
─ Então vamos ter de começar por aí a contar-lhe tudo. ─ sugeriu Eduardo.
─ Sim, tem de ser. ─ anuiu Luísa.
─ Estaremos aqui todos para lhe dar apoio e força. ─ disse Sara
─ Claro que sim. Obrigada, amiga, pela preciosa ajuda.
─ Enquanto a Cristina recupera, nos braços do namorado, e o Daniel não chega, tenho outra coisa para te contar. ─ disse Eduardo dirigindo-se a Luísa com ar misteriosamente apreensivo.
─ É bom ou mau? Pela tua cara… deixas-me preocupada, amor!
─ É uma coisa maravilhosa!
─ Então! ...
─ Descobri que tenho um filho!
─ Deixa-me adivinhar, o Francisco!
─ Ele mesmo.
─ Tens a certeza?
─ Temos ─ respondeu indicando Sara com o olhar.
─ Fiquem os dois que eu vou espreitar o mar. ─ disse a escritora, imaginando que eles gostariam de ficar sós naquele momento de revelações tão importantes, até para o futuro de ambos.
─ Podes perfeitamente ficar ─ exclamou Eduardo. ─ Tu és uma amiga, já sabes de tudo e ajudaste-me a descobrir!
─ Por isso mesmo, já não preciso de ouvir. ─ respondeu Sara a sorrir ─ Eu já volto.
─ Como queiras então!
Sara, sorrateiramente, saiu da sala e foi até ao jardim. Os momentos a seguir seriam unicamente dos dois.
─ O Francisco, mas isso é uma felicidade muito grande para mim também! Conta-me então como soubeste! ─ pediu Luísa.
─ Eu sabia que ias ficar feliz por mim e por ti. Afinal também já gostavas dele como de um filho.
─ É verdade.
Eduardo expôs com todos os pormenores, o caminho que os tinha levado a descobrir o paradeiro de Mariana e a paternidade de Francisco.
─ A Sara foi fundamental na descoberta e hoje, para mim, foi um dia duplamente marcante: estou feliz por termos resolvido o problema da Inês e por ter descoberto que Francisco é meu filho.
─ Ela e as fotografias que o Francisco tirou por cá. Viste como eu já tinha avançado hipóteses nesse sentido?
─ Nunca quis acreditar, eu com um filho! Agora tenho um filho, sou pai! ─ gritou de júbilo, erguendo-se do sofá.
Depois sentou-se de novo, comovido, os olhos rasos de água.
─ Também estou feliz amor, é maravilhoso! Nós realmente achávamos vocês os dois com muita coisa em comum, quem diria!
─ Mas tu que tens acompanhado a minha vida há uns tempos para cá e que sabes tudo de mim, já viste bem o que me aconteceu?
─ Pois. Eles lá ainda não sabem de nada, pois não?
─ Onde, quem?
─ Em Pamplona.
─ A Mariana só sabe da irmã.
─ Mas, naturalmente, terão de saber! O que pensas fazer?
─ Claro, amor! A Mariana vem cá ver a irmã brevemente e depois veremos como lhe vou aparecer. A Sara encaminhará as coisas preparando-a antecipadamente para se encontrar comigo. Depois, a parte mais fácil será contar à Rita e ao Francisco e, para isso, talvez tenhamos de ir a Espanha porque quero estar presente no momento em que ele souber.
─ O meu coração apreensivo, tem uma pergunta para te fazer, mas não quero que me leves a mal!
─ Qual amor?
─ Como vai ser quando te vires na presença do grande amor da tua vida? ─ perguntou receosa.
─ Ora, era isso, tontinha?
─ Era!
─ O grande amor da minha vida, agora és tu! O outro já passou há muito, deixando-me apenas uma terna e dolorosa recordação.
─ E um filho…
─ O filho é a única coisa que não se apagará jamais. Estou seguro do meu amor por ti, fica tranquila! ─ acrescentou, beijando-a.
─ Desculpa, amor, eu confio em ti! ─ disse, abraçando-o contra o peito.
Sara entrou na sala e, ao ver aquele enternecedor quadro, sorriu intimamente feliz pelos dois. Sabia que tinha chegado tarde na vida amorosa de Eduardo mas tinha a certeza absoluta de que a amizade estaria sempre presente entre eles.
Sorridente aproximou-se, depois de ter sido notada, e foi convidada a entrar naquele amplexo pelos braços que se abriram à sua chegada.
─ Estou feliz também por ter reencontrado a sua irmã.
─ Tenho que agradecer à Luísa por isso, já que precipitou os acontecimentos dando o meu número à Rita.
─ Foram mais as fotografias que o Francisco tirou, depois ela pediu-me o número…
─ De qualquer modo… A vida é um romance em que cada um escreve o papel da sua personagem.
─ O mais estranho é que os papeis se encaixam, por vezes, tão perfeitamente, que parecem ter sido escritos por uma única cabeça. ─ notou Eduardo. ─ Como pode isso acontecer?
─ Agora vamos deixar que as coisas se componham para o lado da Cristina. Depois havemos de nos reunir todos para comemorar o desfecho da nossa … obra literária. ─ sugeriu Luísa.
─ Sim, temos de pensar nisso! Para a semana vem a minha irmã e já poderemos combinar alguma coisa.
Naquele momento Rui e Cristina reaparecem na sala e ficaram a saber a novidade.
Os amigos abraçaram-se fortemente comovidos pelo sonho que acabava de ser realizado.
─ Parabéns Eduardo, estou muito contente por ti! ─ disse Cristina .
─ Obrigado! Já estás mais conformada?
─ Preciso de mais tempo, mas já me aguento. ─ respondeu com um sorriso ainda débil.
─ Estamos cá para te ajudar no que for necessário.
─ Eu sei, meu amigo, eu sei!
Naquele momento, Daniel entrou na sala de jantar, acompanhado do namorado.
A mãe abraçou-se a ele a chorar.
─ O que se passa aqui, mamã? Porque estás a chorar?
─ O teu pai… ─ começou a dizer entre soluços.
Eduardo, vendo que ela não conseguia continuar, pôs amigavelmente a mão no ombro do rapaz e, com a ajuda de Sara, pô-lo ao corrente das investigações que tinham levado à tentativa de captura do pai e de como esta havia terminado.
À medida que ia ouvindo a narração, o rosto dele ia tomando sucessivas expressões de surpresa, de repugnância, de ódio, mas, quando soube que o pai havia morrido, sentiu um vazio dentro de si e abraçou de novo a mãe a chorar.
─ O Eduardo é uma bênção! ─ exclamou Teresa num tom afável quando entraram no carrodepois de se despedirem dos amigos.
─ Sim, tem um grande coração e é uma pessoa invulgarmente culta que consegue analisar os problemas de vários ângulos, procurando evitar os preconceitos através dos quais a maioria de nós vê as coisas. Tenho muito orgulho em que ele seja nosso amigo. Se não fosse ele e com a ajuda de Sara este pesadelo ainda não teria terminado e sabe-se lá onde nos levaria. Temos muito a agradecer àqueles dois.
─ Às vezes choca-me o que diz, quando fala contra a religião, mas, embora já me tenha exaltado, não posso deixar de lhe querer bem.
─ Lá terá as suas razões… ─ respondeu Pedro, evasivo.
─ Razões tem, com certeza, mas razão… quando, sozinha, me ponho a pensar em certas coisas que ele diz, sinto-me com…
Teresa ia dizer que se sentia com dúvidas sobre as bases em que assentava a sua fé, já que Eduardo se baseava em conhecimentos comprovados para criticar as religiões, mas parou ao lembrar-se de que os filhos, no banco de trás, ouviam tudo o que dizia.
─ Sentes-te com…
─ Agora não é altura de falarmos sobre isso, o momento é de alegria!
─ Oh mamã, o tio Edu não acredita em Deus? ─ perguntou a Inês a quem não escapou a hesitação da mãe.
Estava na idade em que costumamos pensar muito sobre aqueles assuntos, a ver se resolvemos a contradição interna, que aparece por essa altura, entre as necessidades biológicas da sexualidade em efervescência e aquilo que as regras da moral e da religião nos impõem em termos de comportamento; a oposição entre a nossa verdade interior e aquela que nos é imposta de fora por razões que, na altura, nos parecem pouco claras e nas quais, mais tarde, atenuado o conflito, geralmente a favor das segundas, deixamos de pensar, passando a admitir que o que nos ensinam é que é verdadeiro e útil, ficando assim aptos a transmitir aos nossos filhos as mesmas regras, com todas as suas consequências nefastas. É também a altura do interesse pelas grandes questões do Homem, em que o sentido das respostas que se encontram, determina a nossa ideologia e filosofia de vida futuras, mas, mais do que eles, a sorte de manter a plena capacidade de amar, que a educação, não raro, se encarrega de reduzir a níveis tão baixos, que crenças e actos irracionais e anti-sociais são chamados a compensar.
A nossa capacidade de amar será tanto menos afectada, quanto mais nos for possível seguir a via da sexualidade natural, ou seja, quanto menos impositivo, das regras da moral, for o ambiente em que formos educados.
─ Não sei bem o que te responda, filhota! Ele tem as ideias dele que eu não entendo muito bem.
─ Mas achas que ele está certo?
─ Não de todo. ─ respondeu Teresa que não queria que a filha se afastasse do «bom caminho»
A menina permaneceu calada, acabando por decidir que iria perguntar ao tio Edu o que ele pensava sobre Deus, numa conversa particular de só eles os dois. Não diria nada à mãe porque lhe sentia uma certa hostilidade para com as ideias do tio, de quem gostava muito.
─ Daqui para a frente, temos que passar mais tempo com os nossos filhos. ─ concluiu Pedro, mudando de assunto.
─ Tens razão! Eles precisam que estejamos mais presentes na vida deles. O que acham? ─ perguntou, virando-se para trás.
─ Desde que não se intrometam nas nossas coisas particulares… ─ respondeu Inês.
─ Claro que não, amor! Vamos respeitar as vossas ideias e as vossas decisões, depois de ouvirmos tudo o que tiverem para nos dizer, apenas aconselhando, sem imposições, sem críticas, sem julgamentos, ajudando-vos a escolher o vosso caminho. Para isso temos de começar a confiar uns dos outros. Não tenham receio de nos contar tudo. Falaremos de cada assunto que nos trouxerem, de igual para igual, todas as cartas na mesa. Não sei se me entendem… ─ disse Pedro.
─ Jogamos as cartas no fim de falar? ─ perguntou André que não tinha percebido muito bem e adorava jogar as cartas.
─ O que o papá quis dizer com «todas as cartas na mesa» foi que nenhum de nós esconderá nada aos outros, contará os seus problemas, sejam eles quais forem.
─ Parece-me que vai ser bom. ─ concordou Inês.
─ Em vez de pedirem aos vossos amigos, que muitas vezes sabem menos do que vocês, para vos tirar as dúvidas, venham ter connosco, confiantes.
─ Como os Mosqueteiros, «um por todos, todos por um»! ─ exclamou Inês que andava a ler o livro que o tio lhe tinha oferecido.
─ Isso mesmo! ─ respondeu o pai ─ Então estamos de acordo. Eu e a vossa mãe temos muito para vos ensinar, mas também temos muito que aprender convosco.
Os filhos no banco de trás sorriram um para o outro, porque, de repente os progenitores lhes pareceram mais próximos, mais acessíveis, mais humanos, e terem coisas para ensinar aos pais deixava-os particularmente orgulhosos.
Eduardo conduzia, silenciosamente pensativo, o coração magoado, quando Sara lhe perguntou:
─ O que se passa contigo? Não achas que só tens motivos para apresentares uma expressão mais alegre?
─ Desculpa mas as emoções das últimas horas foram demasiado intensas e o meu cérebro não pára enquanto a minha razão não as assimilar completamente. Há muitas conclusões a retirar de tudo isso.
─ Já cá não está quem falou! Deixo-te entregue aos teus pensamentos, mas não te distraias da estrada e, se precisares, eu vou aqui ao lado.
─ Estava a pensar se não querias ir comigo a casa da Luísa e vínhamos amanhã. Gostaria de ver a Cristina e dizer pessoalmente à Luísa sobre o Francisco.
Sara lançou um olhar terno ao amigo e acabou por dizer:
─ Nada me impede. Se tu achas, vamos.
─ Deixa-me ligar à Luísa a avisar que vamos a caminho.
─ Sim, liga!
Luísa ficou radiante ao saber que o namorado e Sara vinham a caminho.
─ Quem era? ─ perguntou Cristina que falava com o Rui.
─ O Eduardo e a Sara vêm a caminho para nos contar como tudo se passou hoje de manhã.
Indiferente aos sentimentos humanos, mas influenciado por eles, o carro de Eduardo rolava em direcção a S. Pedro de Moel. Sara, de vez em quando, observava o amigo pelo canto do olho. Ele continuava silencioso.
─ E agora? ─ perguntou Sara, não aguentando ir calada para não interromper os pensamentos dele.
─ Agora o quê?
─ Tu sabes o que quero dizer. Estás tão pensativo que isso te deve estar a preocupar.
─ Estava a divagar sobre como a vida é estranha.
─ Tudo por culpa dos homens. Mas o que vais fazer agora quando reencontrares a minha irmã? Será que o sentimento por ela não irá renascer? Vocês têm um filho juntos.
─ Penso que não, eu amo a Luísa! Mas será grande emoção voltar a vê-la depois de tudo o que passámos.
─ Imagino que sim, também para mim será! Mas não tens algum receio?
─ Nenhum de nós é já a mesma pessoa que era naquele tempo e a tua irmã também já não me ama, com certeza. O Francisco em conversa falava num tal Juan colega de trabalho e namorado da mãe. Durante anos esculpi o nome dela no meu coração, foi o meu primeiro amor.
Parou o carro numa área de serviço e ficou a olhar, através do pára-brisas, um ponto longínquo no espaço vazio que era o interior da sua alma, os olhos marejados de lágrimas.
─ Então, o que tens?
─ Um filho que eu não ajudei a criar. ─ respondeu sem desviar o olhar.
─ Pobre amigo, imagino como te deves sentir!
─ Um filho que daria tudo para ter acompanhado e ajudado a crescer.
─ Mas a minha irmã fez um bom trabalho! Resta-te essa consolação que não é bem pequena. Vamos, anima-te que ainda vais ser muito feliz!
─ Quanto tempo perdido e quão felizes poderíamos ter sido!
─ Não adianta lamentar o tempo perdido, não há nada que o possa trazer de volta. Todos temos os nossos sofrimentos, de um modo ou de outro, por este motivo ou por aquele. Pensas que eu também não sofro?
─ Desculpa, ─ disse Eduardo, depois de gastar o último lenço da embalagem a enxugar as lágrimas ─ sou muito egoísta!
─ És apenas mais um coração que sofre e quanto maior é o coração, maior o sofrimento! Conheço-te demasiado bem para saber o que sentes pelas crianças e mais ainda se fosse um filho teu.
─ Ela não tinha o direito de me esconder o filho! ─ disse num desabafo de revolta.
─ Não digas isso, por favor! Achas que tinha outra opção depois de ter sido escorraçada pela tua avó? Imagina só o que deve ter passado para o poder criar, uma rapariga sem eira nem beira, lançada no mundo sozinha. Agora sim, estás a ser bem egoísta! Egoísta e cruel no teu julgamento. Onde está o Eduardo que eu conheço sempre pronto a dar tudo para ajudar alguém? Por muito que lamentes e sofras por não teres participado do crescimento do teu filho, não tens o direito de julgar a Mariana desse modo!
Não te posso desculpar aquelas palavras, não a uma pessoa como tu!
Tenho a certeza de que a minha irmã sofreu muito mais porque, além do sentimento, deve ter tido de lutar pela sobrevivência dela e do filho, talvez passado fome, e tu nunca deixaste de ter o conforto dos bens materiais que sempre dão algum!
Eduardo começava a olhar, envergonhado, para a amiga, sentindo a verdade de cada palavra que ela lhe dirigia, e as lágrimas voltavam a cair não já por ele, mas por imaginar Mariana com o filho de ambos no ventre, mendigando pelas ruas a passar fome e frio.
─ Zanga-te comigo se quiseres, mas tinha de te dizer isto.
─ Não, minha amiga, tu estás certa! A dor cegou-me. Se me puderes perdoar… ─ implorou apoiando a cabeça no ombro de Sara.
─ Como os homens são frágeis afinal! Não aguentariam um décimo daquilo que nós, mulheres, somos capazes. ─ respondeu ela a sorrir, afagando-lhe os cabelos. ─ Meu pobre menino, quanta dor nessa alma sensível! O que seria de vocês se não existisse um ombro feminino para repousarem a vossa fortaleza?
Vocês que constroem e destroem impérios, são incapazes de gerir os próprios sentimentos!
Um dia as mulheres governarão o mundo e seremos então todos muito mais felizes. Estás em condições de continuar a viagem?
─ Penso que sim.
Luísa esperava por eles em frente ao portão. Quando o namorado a viu, abriu os lábios num sorriso rasgado. Cumprimentaram-se com um beijo nos lábios. Sara ainda no carro, olhava-os com ternura. Depois saiu e beijou Luísa.
─ Eu não dava para polícia! ─ disse Eduardo quando abandonava o local, acompanhado de Sara e do casal com a filha.
─ Então porquê? ─ perguntou Sara.
─ Não conseguia disparar contra ninguém. É verdade que era um criminoso da pior espécie, mas ainda assim um ser humano, também ele, vítima da nossa moral social.
─ Se fossem todos como tu onde é que iríamos parar? Isto foi um alívio muito grande, acabou-se o pesadelo. ─ disse Teresa.
─ Eu não disse que eles não foram úteis e não fizeram um bom trabalho. Sem eles seria o caos. Infelizmente, são um mal necessário!
─ Se fosse um filho teu envolvido num caso destes defenderias o criminoso? ─ atacou Pedro com alguma agressividade na voz.
─ Não, não defenderia, não se trata disso. Estás a ser injusto comigo que coloquei todos os meus recursos na defesa da tua filha. ─ defendeu-se Eduardo.
─ Eu sei e agradeço-te, desculpa. Mas parecia que estavas a defender o gajo.
─ O que eu quis dizer é que é a sociedade que produz os criminosos e cria assim a necessidade das polícias. Se não sabemos como evitar fabricá-los, temos de nos defender deles, mas não matando-os, porque, por muito horroroso que seja o crime, também somos culpados.
─ Se tu sabes como fazer porque não ensinas toda a gente? ─ desafiou Teresa ainda nervosa.
─ Sim, o conhecimento existe e está ao alcance de todos, só que é difícil que as pessoas o aceitem como certo.
─ É porque essa certeza não é evidente. Como podemos acreditar em coisas que não são evidentes?
─ A terra girar em volta do sol também não é evidente, pelo contrário.
─ Mas há provas científicas de que assim é.
─ As provas científicas não bastam para que um conhecimento seja aceite e passe a fazer parte da vida das pessoas. No caso da astronomia a aceitação da verdade não colide com os comportamentos aceites, mas no caso do conhecimento sobre educação de crianças seriamos obrigados a alterar radicalmente a nossa maneira de pensar e o nosso comportamento, uma vez que as nossas crenças ancestrais seriam postas em causa e isso custa-nos muito.
─ Mas as nossas crenças são valores adquiridos.
─ Valores necessários, apenas para controlar comportamentos anti-sociais de que são a principal causa.
─ O que há é muita falta de educação. A maioria dos casais trabalham e os filhos ficam ao cuidado de si mesmos, da televisão, da Internet e até da rua, numa de autogestão sem controlo. Não há tempo para lhes darem atenção, não os levam à igreja… ─ acrescentou Teresa.
Eduardo evitou responder para não entrar em polémica com ela (já lhe bastava o que acabara de passar), porque tinha a noção de que a igreja era quem mais contribuía para o mau estado das coisas, fosse por inconsciência ou interesse próprio, e quem mais lucrava com isso. Bastava ver o extraordinário sucesso do hipermercado da fé que era Fátima onde, até a rastejar, a irracionalidade humana, resultado do psiquismo avariado pela educação, ia depositar os seus (muitas vezes) parcos rendimentos.
Sara apercebeu-se do conflito latente e resolveu mudar o rumo da conversa:
─ Bom, é um dia feliz para todos nós, deixemos as reflexões mais profundas para o íntimo de cada um e vamos almoçar que é tempo.
─ Eu tenho fome! ─ declarou Inês mais calma.
─ Ter fome é bom, felizmente não perdeste o apetite! ─ exclamou Eduardo pousando-lhe a mão no ombro.
─ Indica-nos um bom restaurante que eu quero convidar todos. ─ pediu Sara agarrando-se a um braço de Eduardo.
─ Temos de dar um salto a casa para ir buscar o André ─ lembrou Pedro ─ e o convite para o almoço fica por nossa conta. Já tínhamos essa intenção e não se fala mais nisso. Vocês é que trabalharam para nós e a senhora escritora é que ia pagar-nos a refeição, era só o que faltava!
─ Oh senhor Pedro, tudo bem, mas essa da senhora escritora foi demais! Também quer que o trate assim? Afinal somos todos amigos ou não somos, já? ─ sorria Sara abertamente.
─ Está bem, peço desculpa! ─ respondeu um pouco atrapalhado, como um menino apanhado em falta, embora não por sentimento de culpa, mas porque aquela mulher o perturbava e não sabia como reagir na presença de terceiros, principalmente da esposa.
“Se eu a apanhasse a sós, saberia responder-lhe”, magicava para si mesmo, “oh se saberia, mas com arranjar um jeito?»
Daí a pouco estavam todos no restaurante à espera de serem servidos e Pedro, com risco de ser descoberto, não conseguia desviar os olhos da escritora.
Apenas a Sara não escapava aquele interesse que Pedro lhe devotava, mas procurou evitar que os seus olhares se cruzassem.
Sentada ao lado de Eduardo, pôs-lhe a mão no braço e disse, numa voz tão carinhosa que o amigo sentiu ciúmes e desviou o olhar:
─ Mais um motivo de felicidade, não é meu amigo?
─ É verdade e graças a ti! Era um pesadelo que trazíamos há muitos dias. Agora quanto ao outro caso, temos de ir a Pamplona quanto antes!
─ Ah, eu não te disse, ela vem cá para a semana ver-me. Depois irei com ela passar uns dias lá.
─ E não me dizias nada!
─ Ainda não tinha dito, mas iria dizer.
─ De que é que vocês estão a falar? ─ quis saber Teresa.
─ Pois, vocês não sabem o que me aconteceu: ─ respondeu Eduardo ─ encontrámos a Mariana!
─ A tua antiga namorada? ─ perguntou Pedro.
─ Ela mesmo! É irmã gémea aqui da Sara. Eu conto-vos tudo.
Quando ele acabou a narrativa, Teresa e Pedro estavam de queixos caídos.
─ Ele acontece cada uma, já viste bem?! Nem sei o que te diga! ─ desabafou o amigo.
─ Quantos anos tem o teu filho, ─ perguntou Inês, que até aí se mantivera calada a ouvir a conversa dos adultos, ante a perspectiva de um novo amigo ─ eu também vou conhecê-lo?
─ Claro que vais! Não sei bem, mas deve ter de 25 a 27 anos.
─ Demasiado grande para ser teu namorado! ─ picou o irmão.
Todos se riram e o almoço terminou descontraidamente em conversas leves e irrelevantes para esta história.
Muito perturbada com o inesperado desfecho, apesar de tudo, saiu da sala e refugiou-se no quarto. Luísa, numa atitude de compreensão, deixou-a ir sozinha; afinal era pai do seu filho e ainda teria de passar pela dor de lhe dar a notícia e todas as explicações pela causa da sua morte. Ela própria, perante amiga, se fez dura, mas a morte mexia verdadeiramente com ela.
Deitada de bruços na cama, Cristina ainda chorou por algum tempo, a crueldade do passado, o alívio do presente e a incerteza do futuro, pelo vazio que a morte de alguém sempre lhe deixava na alma.
Tantas vezes desejara morrer, às mãos do carrasco que fora o marido, para que terminasse o sofrimento de toda uma vida de maus tratos e, agora que estes haviam acabado, não se sentia mais tranquila. Era como se tivesse ela morrido, mas conservasse a faculdade de assistir à continuação da sua mesma vida em que a violência fora substituída por um enorme vazio, porque Cristina se habituara, de certo modo, ao massacre físico e psicológico e isso impedira-a de se suicidar, mesmo tendo admitido algumas vezes essa possibilidade.
Era tão grande a angústia que sentia, que a imagem de Rui, aflorando-lhe fugazmente ao espírito, não lhe despertava a necessidade de lhe telefonar, mas foi ele quem lhe ligou para saber as notícias, e aquela voz amada, cuja iniciativa de ouvir não havia tomado, veio do outro lado da linha para a fazer compreender que o futuro começava ali e trazia a esperança de ser bem melhor que o passado.
Depois de lhe contar tudo fez-se um pequeno silêncio.