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Friday, August 10, 2007

Virtual Realidade Parte 98


Teresa esperava em casa, entre ansiosa e curiosa por saber como seria Sara em pessoa.
Uma estranha que, por um acaso desfavorável ocorrido no seu próprio meio familiar, a roda do mundo ia fazer entrar na sua vida. Talvez estivessem destinadas a serem amigas a partir daí e, mais uma vez, se concluiria que os deuses escrevem direito por linhas tortas. Mas isso são outras filosofias que não cabem no âmbito desta história e que deixamos de bom grado a cada leitor pensar o que quiser a respeito.
Levantara-se cedo, como boa dona de casa tradicional, cumprindo as normas em que fora educada, para que tudo estivesse em ordem quando a visita chegasse: as camas feitas, as casas de banho em regra… enfim, todos os pormenores em que as mulheres pensam que, quem lhes visita o lar, principalmente se for outra mulher, pode arranjar um pretexto para pensar menos bem delas, embora, hoje em dia, haja uma certa vaidade em se parecer indiferente a esse tipo de preocupações. Tão estranha e quase sempre bem disfarçada é a servidão feminina, que, mesmo os homens mais esclarecidos e bem-intencionados não a notam e as mulheres mais lúcidas e evoluídas não a distinguem.
A opinião alheia tem muito peso no nosso comportamento porque fomos educados para a respeitar e não porque seja mais válida do que a nossa, quando a nossa ousa divergir da da maioria.
Pedro não era desses machos humanos ainda habituais, subconscientemente convencidos de que ajudar a mulher, nos trabalhos domésticos ou no cuidar dos filhos, lhes diminui em alguma coisa a virilidade; ou que os trabalhos da casa são feudo exclusivo das mulheres e indignos de homens que se prezam, e Teresa teve no marido uma preciosa ajuda para a ocasião.
Aliás, desde o início do casamento, as tarefas domésticas sempre haviam sido repartidas entre os dois, não por divisão preestabelecida, mas por acordo tácito: cada um deles fazia o que devia ser feito de acordo com as necessidades, a disponibilidade e a energia de cada um no momento preciso. Ambos trabalhavam fora de casa e era ele que, muitas vezes, se levantava de noite quando o filho ou a filha, pequeninos ainda, os acordavam a chorar por causa da fralda ou por alguma dor ou má disposição, sem necessitar sequer que a mulher lho pedisse.
Nesse dia uniram esforços, mais uma vez, e tudo estava pronto quando a campainha da porta tocou anunciando a chegada das visitas.
Os filhos, excitados, acorreram a abrir. A chegada do tio Edu era sempre um acontecimento importante para eles; e mais ainda nesta altura que vinha acompanhado de uma amiga que não conheciam.
─ Olá tio Edu! ─ saudaram em simultâneo, atirando-se para os braços dele.
─ Olá, gente boa! ─ respondeu Eduardo, baixando-se à altura deles e abraçando-os.
Sara ficou surpreendida com a recepção ao Eduardo e sorriu, comovida, ao ver o quanto o amigo era querido das duas crianças.
─ Vamos, entrem! ─ disse Pedro, aparecendo à porta com a mulher.
Eduardo ergueu-se e fez as apresentações.
Depois de se cumprimentarem com um beijo, Teresa pegou na mão de Sara e disse:
─ Seja bem vinda! Vamos entrando.
Pedro e os filhos entraram atrás das duas mulheres, enquanto Eduardo voltava ao carro para buscar a mala de Sara.
Na sala, Pedro perguntou:
─ Posso guardar-lhe o casaco?
─ Sim, obrigada! ─ respondeu tirando-o e entregando-lho. Está-se muito bem aqui!
─ Esteja à vontade!
O apartamento aquecido, num gritante contraste com a temperatura de fora, proporcionava um ambiente bastante confortável. Móveis antigos de carvalho e nogueira decoravam a sala de uma forma simples, mas com bom gosto. Alguns quadros preenchiam as paredes em branco. A mesa estava enfeitada com um centro de Natal.
─ Tenho de ir ver o almoço. ─ avisou Teresa, quando Eduardo chegava com a mala ─ Sara, venha comigo para lhe mostrar o quarto onde vai ficar!
─ Com licença, cavalheiros! ─ pediu a amiga de Eduardo, dirigindo-se aos dois homens, com um largo sorriso, onde se estampava toda a sua beleza. Seguindo atrás da dona da casa com os filhos do casal pela mão, sentia-se perfeitamente à vontade.
─ Teresa, onde ponho a mala da Sara? ─ perguntou Eduardo.
─ Espera um pouco que já tratamos disso.
As duas afastaram-se deixando Pedro e Eduardo na sala, entregues a uma conversa de homens.
─ Estou deveras impressionado, ─ disse Pedro quando ficou a sós com o amigo ─ é muito bonita a tua amiga!
─ Sim, muito bonita. ─ concordou Eduardo sorrindo ─ e inteligente também.
─ Quem sabe, se a tivesses conhecido antes da Luísa... ─ atirou Pedro a sondar o amigo.
─ Eu estou apaixonado pela Luísa. ─ defendeu-se Eduardo.
─ Sim, mas... ─ insistiu Pedro.
─ Não há mas! Aconteceu assim e não de outro modo. A Sara será sempre uma boa amiga.
─ Não te zangues! Só ia perguntar se continuas a achá-la parecida com a Mariana.
─ Sim, continuo convencido de que há semelhanças entre elas, embora não faça ideia de como o tempo modificou a Mariana. Deve ser apenas coincidência. Afinal todos sabemos que existem pessoas parecidas sem terem nada a ver umas com as outras.
─ Pois é verdade! Acho que tens um dom especial para encontrar as boas pessoas na internet!
─ Também encontro desequilibradas, mal-intencionadas, estúpidas, gente armada em esperta e que não tem nada na cabeça; mas só me dou com aquelas em quem vejo que posso confiar. E isso sabe-se ao fim de algum tempo de convivência.
─ A minha primeira impressão é favorável. Espero que a Teresa também esteja a gostar dela.
─ Falavam de mim? ─ perguntou a mulher do Pedro que regressava com a nova amiga e tinha apanhado o seu nome na última frase do marido.
─ Mais ou menos, ─ explicou Eduardo ─ mas não era nada de mal.
─ Hum, quando os homens se juntam para falar de nós... ─ disse Teresa olhando para Sara, como que a fazer dela sua cúmplice.
─ É verdade, ─ confirmou esta, entrando no jogo da anfitriã ─ com os homens nunca se sabe!
─ Mas que mal poderíamos dizer de uma mulher como tu? ─ respondeu Eduardo, dissipando do espírito de Teresa alguma dúvida que lhe pudesse restar.
─ Só acredito porque confio plenamente em ti. ─ e, dirigindo-se ao marido que não conseguia afastar os olhos de Sara: ─ serve um aperitivo, se fazes favor!
─ Precisamente, vamos a isso! ─ concordou Pedro, acordando da distracção que não passou despercebida à esposa.
─ Boa ideia! ─ anuiu a escritora.
─ Um Porto, Sara? Perguntou Pedro, fixando de novo o olhar na bela mulher que estava à sua frente.
─ Sim, obrigada!
Sara, apercebendo-se de que não era indiferente a Pedro, pensou que teria de fazer tudo para evitar mal-entendidos no casal. Sorrindo e disfarçando dirigiu-se aos miúdos e disse:
─ Tenho uma prenda para cada um de vocês. Querem já ou depois do almoço?
─ Já! ─ responderam os dois.
─ Eduardo, ajudas-me com a mala, por favor?
Sara distribuiu os presentes pelos miúdos: ofereceu à Inês um dos seus livros: por sinal, o primeiro que tinha escrito. Ao irmão uma colecção de carros de corrida. Ambos agradeceram com beijos.
A escritora, comovida, pensava em como também ela gostaria de ter uma família. Os seus pensamentos recuaram umas décadas atrás, quando a família estava toda junta, apesar das dificuldades que levaram os pais a separá-las do seio familiar. A pequena Inês olhava atentamente para o título do livro, lia e relia, tentando encontrar-lhe o significado.
─ Sara, gostava de saber o que quer dizer “Asas Para Voar”.
─ Quando escrevi este livro era pouco mais velha do que tu. Incentivada pela madre superior e por uma irmã, consegui terminar. Aconselho-te a leres e vais entender perfeitamente o seu significado. Fui criada num colégio de freiras, juntamente com a minha irmã. Os nossos pais eram muito pobres e não tinham meios para sustentar a família toda.
Pedro notava como Sara dava toda atenção a Inês. Sabia perfeitamente que ela faria os possíveis para ganhar sua confiança antes de tocar no assunto que a levou a visitá-los.
─ Sugiro que façamos um brinde para comemorar este encontro. ─ propôs Pedro.
Ao redor da mesa todos brindavam à nova amizade e ao futuro.

─ O almoço está pronto. ─ anunciou Teresa que tinha ido de novo à cozinha.
─ E o manjar é... ─ quis saber Eduardo.
─ Surpresa! Sentem-se à mesa que ja vou servir.
Sentaram-se á mesa e deliciaram-se com um salmão assado no forno com gambas.

Continua...

10 Comments:

Blogger tb said...

e eu a pensar que o Edu não gostava de gambas... :)
A amizade em toda a sua plenitude. Gostei muito!
Beijinhos

12:36 am  
Blogger A COR DO MAR said...

Amigos, venho deixar-vos um grd e longo beijinho ;*
Nunca estão esquecidos, o tempo é que ......:\

Beijinhos*

12:48 am  
Blogger Miguel Augusto said...

Interessante passagem sobre os modelos femininos e masculinos vividos e impostos pela sociedade, pelos outros e por nós próprios. Beijinhos

11:30 am  
Blogger lena said...

meus queridos amigos Isa e Luís

mais um capítulo, para me deliciar enquanto saboreio o delicioso salmão com gambas

para mim já não é admiração a ajuda entre casais, em casa dos maus pais já era assim, todas nós aprendemos que a inter ajuda é a maneira mais saudável de se saber viver

uma bela recepção à Sara. o Pedro encantando com a beleza da Sara. os “miúdos” como já é normal recebem sempre muito bem o Eduardo

tudo bem descrito e uma vez mais viajo na vossa narrativa só faltou um pouco de entusiasmo da parte do Eduardo pela Sara. isto sou eu a dizer, pois para mim é importante

eh eh eh

continuem que quero mais, desenvolvam. fica à espera


beijinhos meus e como sempre vos abraço para além de virtual, meus amigos

lena

9:34 pm  
Anonymous Martha said...

Adorei seu blog... ;D Dá só uma olhada nesse videozinho... muito lkegal ;D http://www.ganheparasedivertir.com.br/v.asp?id=800

2:09 am  
Anonymous In Loko said...

Mais um bom capítulo, e sempre bem escrito! Isto promete mais boas leituras. Beijinho e abraço.

6:43 am  
Blogger Å®t Øf £övë said...

Gostei deste clima de suspense que vocês deixaram no ar entre a Sara e o Pedro.
Volto para ler os desenvolvimentos.
Beijos e abraços.

11:29 pm  
Blogger Nilson Barcelli said...

Andei ausente, mas já recuperei...
Continuo a gostar.
Beijinhos e abraços.

6:42 pm  
Anonymous Carla said...

Salmao com Gambas... gostava de saber a receita deve de ser maravilhoso... espero que a Sara com a sua beleza e simpatia não dê a volta a cabeça dos homens, esperemos... beijocas

9:56 pm  
Anonymous Nylda said...

Olá meus querido...
Fiquei com a leitura atrazada...ahhh mas eu recupero :).
As férias terminaram, voltei para junto
dos amigos :). Vim ler as novidades,
agradecer o carinho e desejar uma feliz semana.
Beijo e um sorriso.

1:45 pm  

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