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Friday, August 22, 2008

Virtual Realidade Parte 148


─ O Eduardo é uma bênção! ─ exclamou Teresa num tom afável quando entraram no carro depois de se despedirem dos amigos.

─ Sim, tem um grande coração e é uma pessoa invulgarmente culta que consegue analisar os problemas de vários ângulos, procurando evitar os preconceitos através dos quais a maioria de nós vê as coisas. Tenho muito orgulho em que ele seja nosso amigo. Se não fosse ele e com a ajuda de Sara este pesadelo ainda não teria terminado e sabe-se lá onde nos levaria. Temos muito a agradecer àqueles dois.

─ Às vezes choca-me o que diz, quando fala contra a religião, mas, embora já me tenha exaltado, não posso deixar de lhe querer bem.

─ Lá terá as suas razões… ─ respondeu Pedro, evasivo.

─ Razões tem, com certeza, mas razão… quando, sozinha, me ponho a pensar em certas coisas que ele diz, sinto-me com…

Teresa ia dizer que se sentia com dúvidas sobre as bases em que assentava a sua fé, já que Eduardo se baseava em conhecimentos comprovados para criticar as religiões, mas parou ao lembrar-se de que os filhos, no banco de trás, ouviam tudo o que dizia.

─ Sentes-te com…

─ Agora não é altura de falarmos sobre isso, o momento é de alegria!

─ Oh mamã, o tio Edu não acredita em Deus? ─ perguntou a Inês a quem não escapou a hesitação da mãe.

Estava na idade em que costumamos pensar muito sobre aqueles assuntos, a ver se resolvemos a contradição interna, que aparece por essa altura, entre as necessidades biológicas da sexualidade em efervescência e aquilo que as regras da moral e da religião nos impõem em termos de comportamento; a oposição entre a nossa verdade interior e aquela que nos é imposta de fora por razões que, na altura, nos parecem pouco claras e nas quais, mais tarde, atenuado o conflito, geralmente a favor das segundas, deixamos de pensar, passando a admitir que o que nos ensinam é que é verdadeiro e útil, ficando assim aptos a transmitir aos nossos filhos as mesmas regras, com todas as suas consequências nefastas. É também a altura do interesse pelas grandes questões do Homem, em que o sentido das respostas que se encontram, determina a nossa ideologia e filosofia de vida futuras, mas, mais do que eles, a sorte de manter a plena capacidade de amar, que a educação, não raro, se encarrega de reduzir a níveis tão baixos, que crenças e actos irracionais e anti-sociais são chamados a compensar.

A nossa capacidade de amar será tanto menos afectada, quanto mais nos for possível seguir a via da sexualidade natural, ou seja, quanto menos impositivo, das regras da moral, for o ambiente em que formos educados.

─ Não sei bem o que te responda, filhota! Ele tem as ideias dele que eu não entendo muito bem.

─ Mas achas que ele está certo?

─ Não de todo. ─ respondeu Teresa que não queria que a filha se afastasse do «bom caminho»

A menina permaneceu calada, acabando por decidir que iria perguntar ao tio Edu o que ele pensava sobre Deus, numa conversa particular de só eles os dois. Não diria nada à mãe porque lhe sentia uma certa hostilidade para com as ideias do tio, de quem gostava muito.

─ Daqui para a frente, temos que passar mais tempo com os nossos filhos. ─ concluiu Pedro, mudando de assunto.

─ Tens razão! Eles precisam que estejamos mais presentes na vida deles. O que acham? ─ perguntou, virando-se para trás.

─ Desde que não se intrometam nas nossas coisas particulares… ─ respondeu Inês.

─ Claro que não, amor! Vamos respeitar as vossas ideias e as vossas decisões, depois de ouvirmos tudo o que tiverem para nos dizer, apenas aconselhando, sem imposições, sem críticas, sem julgamentos, ajudando-vos a escolher o vosso caminho. Para isso temos de começar a confiar uns dos outros. Não tenham receio de nos contar tudo. Falaremos de cada assunto que nos trouxerem, de igual para igual, todas as cartas na mesa. Não sei se me entendem… ─ disse Pedro.

─ Jogamos as cartas no fim de falar? ─ perguntou André que não tinha percebido muito bem e adorava jogar as cartas.

─ O que o papá quis dizer com «todas as cartas na mesa» foi que nenhum de nós esconderá nada aos outros, contará os seus problemas, sejam eles quais forem.

─ Parece-me que vai ser bom. ─ concordou Inês.

─ Em vez de pedirem aos vossos amigos, que muitas vezes sabem menos do que vocês, para vos tirar as dúvidas, venham ter connosco, confiantes.

─ Como os Mosqueteiros, «um por todos, todos por um»! ─ exclamou Inês que andava a ler o livro que o tio lhe tinha oferecido.

─ Isso mesmo! ─ respondeu o pai ─ Então estamos de acordo. Eu e a vossa mãe temos muito para vos ensinar, mas também temos muito que aprender convosco.

Os filhos no banco de trás sorriram um para o outro, porque, de repente os progenitores lhes pareceram mais próximos, mais acessíveis, mais humanos, e terem coisas para ensinar aos pais deixava-os particularmente orgulhosos.

Eduardo conduzia, silenciosamente pensativo, o coração magoado, quando Sara lhe perguntou:

─ O que se passa contigo? Não achas que só tens motivos para apresentares uma expressão mais alegre?

─ Desculpa mas as emoções das últimas horas foram demasiado intensas e o meu cérebro não pára enquanto a minha razão não as assimilar completamente. Há muitas conclusões a retirar de tudo isso.

─ Já cá não está quem falou! Deixo-te entregue aos teus pensamentos, mas não te distraias da estrada e, se precisares, eu vou aqui ao lado.

─ Estava a pensar se não querias ir comigo a casa da Luísa e vínhamos amanhã. Gostaria de ver a Cristina e dizer pessoalmente à Luísa sobre o Francisco.

Sara lançou um olhar terno ao amigo e acabou por dizer:

─ Nada me impede. Se tu achas, vamos.

─ Deixa-me ligar à Luísa a avisar que vamos a caminho.

─ Sim, liga!

Luísa ficou radiante ao saber que o namorado e Sara vinham a caminho.

─ Quem era? ─ perguntou Cristina que falava com o Rui.

─ O Eduardo e a Sara vêm a caminho para nos contar como tudo se passou hoje de manhã.

Indiferente aos sentimentos humanos, mas influenciado por eles, o carro de Eduardo rolava em direcção a S. Pedro de Moel. Sara, de vez em quando, observava o amigo pelo canto do olho. Ele continuava silencioso.

─ E agora? ─ perguntou Sara, não aguentando ir calada para não interromper os pensamentos dele.

─ Agora o quê?

─ Tu sabes o que quero dizer. Estás tão pensativo que isso te deve estar a preocupar.

─ Estava a divagar sobre como a vida é estranha.

─ Tudo por culpa dos homens. Mas o que vais fazer agora quando reencontrares a minha irmã? Será que o sentimento por ela não irá renascer? Vocês têm um filho juntos.

─ Penso que não, eu amo a Luísa! Mas será grande emoção voltar a vê-la depois de tudo o que passámos.

─ Imagino que sim, também para mim será! Mas não tens algum receio?

─ Nenhum de nós é já a mesma pessoa que era naquele tempo e a tua irmã também já não me ama, com certeza. O Francisco em conversa falava num tal Juan colega de trabalho e namorado da mãe. Durante anos esculpi o nome dela no meu coração, foi o meu primeiro amor.

Parou o carro numa área de serviço e ficou a olhar, através do pára-brisas, um ponto longínquo no espaço vazio que era o interior da sua alma, os olhos marejados de lágrimas.

─ Então, o que tens?

─ Um filho que eu não ajudei a criar. ─ respondeu sem desviar o olhar.

─ Pobre amigo, imagino como te deves sentir!

─ Um filho que daria tudo para ter acompanhado e ajudado a crescer.

─ Mas a minha irmã fez um bom trabalho! Resta-te essa consolação que não é bem pequena. Vamos, anima-te que ainda vais ser muito feliz!

─ Quanto tempo perdido e quão felizes poderíamos ter sido!

─ Não adianta lamentar o tempo perdido, não há nada que o possa trazer de volta. Todos temos os nossos sofrimentos, de um modo ou de outro, por este motivo ou por aquele. Pensas que eu também não sofro?

─ Desculpa, ─ disse Eduardo, depois de gastar o último lenço da embalagem a enxugar as lágrimas ─ sou muito egoísta!

─ És apenas mais um coração que sofre e quanto maior é o coração, maior o sofrimento! Conheço-te demasiado bem para saber o que sentes pelas crianças e mais ainda se fosse um filho teu.

─ Ela não tinha o direito de me esconder o filho! ─ disse num desabafo de revolta.

─ Não digas isso, por favor! Achas que tinha outra opção depois de ter sido escorraçada pela tua avó? Imagina só o que deve ter passado para o poder criar, uma rapariga sem eira nem beira, lançada no mundo sozinha. Agora sim, estás a ser bem egoísta! Egoísta e cruel no teu julgamento. Onde está o Eduardo que eu conheço sempre pronto a dar tudo para ajudar alguém? Por muito que lamentes e sofras por não teres participado do crescimento do teu filho, não tens o direito de julgar a Mariana desse modo!

Não te posso desculpar aquelas palavras, não a uma pessoa como tu!

Tenho a certeza de que a minha irmã sofreu muito mais porque, além do sentimento, deve ter tido de lutar pela sobrevivência dela e do filho, talvez passado fome, e tu nunca deixaste de ter o conforto dos bens materiais que sempre dão algum!

Eduardo começava a olhar, envergonhado, para a amiga, sentindo a verdade de cada palavra que ela lhe dirigia, e as lágrimas voltavam a cair não já por ele, mas por imaginar Mariana com o filho de ambos no ventre, mendigando pelas ruas a passar fome e frio.

─ Zanga-te comigo se quiseres, mas tinha de te dizer isto.

─ Não, minha amiga, tu estás certa! A dor cegou-me. Se me puderes perdoar… ─ implorou apoiando a cabeça no ombro de Sara.

─ Como os homens são frágeis afinal! Não aguentariam um décimo daquilo que nós, mulheres, somos capazes. ─ respondeu ela a sorrir, afagando-lhe os cabelos. ─ Meu pobre menino, quanta dor nessa alma sensível! O que seria de vocês se não existisse um ombro feminino para repousarem a vossa fortaleza?

Vocês que constroem e destroem impérios, são incapazes de gerir os próprios sentimentos!

Um dia as mulheres governarão o mundo e seremos então todos muito mais felizes. Estás em condições de continuar a viagem?

─ Penso que sim.

Luísa esperava por eles em frente ao portão. Quando o namorado a viu, abriu os lábios num sorriso rasgado. Cumprimentaram-se com um beijo nos lábios. Sara ainda no carro, olhava-os com ternura. Depois saiu e beijou Luísa.

Continua...

10 Comments:

Blogger soli-arte said...

olá queridos amigos. Senti a falta de vos visitar estas duas semanas.
Como de costume gostei de vos ler.Fico à espera do próximo capítulo. Beijos
Soli

11:27 pm  
Blogger MoonLight said...

Saudades de vos ler!
Espero que as férias tenham sido muito boas!
A escrita ... como sempre... formidável!
Vamos ver o que está para vir!
Obrigado pela partilha!
Bjs de Luz*

10:50 am  
Blogger Miguel Augusto said...

O caminho para mim começou por volta dos 15 anos! As dúvidas já existiam e as respostas eram dadas pela ciência, não pela religião! Depois disso quanto mais se aprofunda o conhecimento científico mais se afasta da religião e cedo se percebe como são incompatíveis! Eu escolhi a ciência porque no fundo depois de alguma reflexão a outra opção não teria qualquer sentido!

10:59 am  
Anonymous Carla said...

Olá amiga, duas semanas sem publicação, senti saudades, até aqui tem sido muito Bom, pelo que li hoje, o melhor está para vir...espero ansiosa, beijinhos

10:45 pm  
Anonymous Carla said...

Olá amiga, duas semanas sem publicação, senti saudades, até aqui tem sido muito Bom, pelo que li hoje, o melhor está para vir...espero ansiosa, beijinhos

10:45 pm  
Blogger PoesiaMGD said...

E vou continuar a procurar a continuação!
Abraço

9:10 pm  
Blogger tb said...

Tanto que é dito em tão pouco espaço. Gostei dos temas aflorados e uma lágrima a bailar veio juntar-se a um sorriso.:)
beijinhos

4:25 pm  
Anonymous Azoriana said...

Parte 148 - Teresa, Pedro e os filhos à conversa; Eduardo e Sara falam sobre Mariana...

11:53 pm  
Blogger lena said...

hoje entro depois de ter lido já um "fim" anunciado aqui no blog

estou habituada a ler-vos, mesmo que não deixe palavras. porém tentei comentar todos os capítulos, com a certeza de vos ler e reler, sentindo cada uma das passagens


este foi um dos capítulos que mais pensei, não pelas ideias do Eduardo quanto às religiões, ou o caminho que ele traçou para as definir.

cada um é livre de escolher e saber o que é melhor. a ciência explica muito e as reflexões são de cada um, só segue esse caminho quem quer, respeito cada um, embora, tal como o Eduardo fiz a minha escolha

ainda nem que a Sara realçou e o fez entender que nem sempre a vida corre como queremos, a Mariana não escondeu o filho propositadamente, foram as circunstâncias em que tudo se passou. julgar é fácil, nas é preciso saber julgar, antes de culpar
muitos dos desentendimentos começam assim, por não saberem aceitar

"vi" o sorriso da Sara e como é preciso realmente um ombro feminino para "repousar" algumas fragilidades do homem

fiquei no portão à espera, e fiz companhia à Luísa


vou subir e continuar também as minhas reflexões...

é sempre um prazer passar e estar aqui, como se vivesse todos os instantes, marrados

abraço-vos com carinho, com amizade e a ternura que é sempre presença

beijinhos aos dois, meus amigos queridos

lena

12:12 pm  
Blogger Å®t Øf £övë said...

Vim recordar-vos.
Beijos e abraços.

11:48 pm  

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