Virtual realidade Parte 143

Nessa noite, Eduardo sonhou que vivia com Mariana e tinham um filho muito pequeno ainda.
E havia tanta nitidez no sonho que lhe parecia estar a viver a realidade.
Brincavam os dois no jardim, ele e o filho, quando Mariana veio com o lanche que pousou na pequena mesa branca de plástico de estar ao tempo. Ela endireitou-se e olhou enternecida aquele seu pequeno mundo.
Trazia vestidos uns calções muito curtos, que lhe realçavam a beleza das pernas, e Eduardo sentiu uma onda de sensualidade percorrer-lhe o corpo; num impulso, levantou-se para lhe dar um beijo, mas quando se aproximou dela o rosto que viu na sua frente era o de Luísa. Um pouco baralhado, olhou para trás de si e o filho já lá não estava.
Aflito, correu por todo o jardim à procura da criança e, ao passar uma árvore num recanto, reconheceu Mariana, ao longe, a fugir com o filho nos braços. Corria mais e mais depressa, mas o jardim não tinha fim e os dois iam-se afastando cada vez mais, maugrado os seus esforços para os alcançar, até que os perdeu de vista.
Acordou transpirado e ainda sob o efeito do sonho que acabara de ter, de tal modo que lhe custou voltar à realidade.
“Um sonho que resume o que foi a minha vida, excepto o filho talvez!” ─ pensou assim que a razão lhe acudiu totalmente aos sentidos e que a realidade conseguiu afastar a impressão tão nítida do pesadelo.
─ Um filho meu? ─ disse em voz alta ─ Preciso de falar com a Sara.
Pegou no telemóvel e seleccionou o número dela, fazendo ok.
─ Sara?
─ Sim…
─ Eduardo.
─ Algum problema, meu querido?
─ Nada, apenas tenho urgência em falar contigo pessoalmente. Diz-me quando pode ser.
─ Para ti estou sempre livre! Não me podes adiantar o assunto?
─ Tem a ver com aquele medalhão e a tua irmã, Mariana. Poderíamos encontrar-nos na Praça da Batalha, no café … pelas seis horas da tarde de hoje?
─ Perfeitamente! Lá estarei à tua espera.
─ Obrigado e até mais logo então!
As horas passavam lentamente e Sara sentia uma enorme ansiedade. Não era capaz de se concentrar. O que teria Eduardo de tão urgente para lhe dizer e sobre a irmã se nem sequer a conhecia?
Ainda pensativa, entrou no táxi e pediu:
─ Por favor, Praça da Batalha!
Quando chegou ao café, Eduardo já esperava por ela com um olhar tão ausente que nem deu pela sua presença.
─ Olá Sara! Nem imaginas o que me tem acontecido nos últimos dias desde que vi as fotos no teu medalhão!
─ Então?!
─ De facto já tinha reparado que és muito parecida com ela, mas…
─ Referes-te à Mariana?
─ Sim à Mariana.
─ Mas se somos gémeas, não é muito natural que sejamos parecidas?
─ Claro, claro, mas é que… ─ disse Eduardo visivelmente transtornado porque, quanto mais olhava o rosto de Sara, mais lhe parecia a Mariana tal como a imaginava ao fim daqueles anos todos, principalmente agora que sabia que eram irmãs.
─ O que tens, não seria melhor irmos para minha casa onde estaríamos mais sossegados?
─ Sim, sim, é melhor.
No silêncio do apartamento alugado com vista sobre a foz do rio Douro, comodamente instalados, Eduardo continuou:
─ Diz-me, há quanto tempo não sabes nada da tua irmã?
─ Aproximadamente desde os nossos vinte anos, porquê?
─ Até hoje nunca mais soubeste nada dela?
─ Nunca mais.
─ Pois talvez estejamos bem mais perto de a encontrarmos do que imaginamos.
─ Como assim? Pareces também muito interessado em a encontrares!
─ Muito!
─ Mas porquê se nunca a conheceste?
─ Eu conheci.
─ Conheceste?!
─ Lembras-te contar-te a história do grande amor da minha vida?
─ Claro que sim, até gravei!
─ Pois foi, mas eu não te disse o nome dela.
─ Não, acho que não! Não me digas que…
─ Sim, o nome dela era Mariana. A tua irmã gémea Mariana.
─ Tens a certeza do que afirmas? ─ perguntou Sara estupefacta.
─ Absoluta, minha amiga! Vê esta fotografia, eu e ela. ─ disse Eduardo mostrando a foto que tinha guardado durante tantos anos.
─ Não há dúvida nenhuma, de facto é ela!
─ E sou eu também. Não usava barba nessa altura.
─ Não me disseste nada quando me perguntaste quem era no medalhão.
─ Não disse porque ver aquelas fotos foi uma surpresa muito grande e, de repente, não soube o que pensar. Quando te telefonei e me disseste que eras irmã dela a minha surpresa aumentou e precisava de pensar, juntar as peças todas.
─ Há mais peças?
─ Há a hipótese de a nossa Mariana estar a viver em Pamplona e ser a mãe do Francisco.
─ E de o Francisco ser teu filho? ─ perguntou Sara depois de reflectir sobre o que acabara de ouvir.
─ Sim, e de o Francisco ser meu filho.
─ Até estou com pele de galinha!
─ Imagina como eu me sinto.
─ Pois, faço ideia! Mas porque achas que pode ser ela?
─ Porque o Francisco e a Rita notaram que és muito parecida com ela.
─ Por tanto tempo tentei saber dela e agora aparece quando havia desistido de a encontrar!
─ Ainda não temos a certeza.
─ Pois não, mas é muita coincidência. Sabes que a última coisa que sei dela é que os nossos pais a expulsaram de casa quando souberam que estava grávida.
─ Eu não fazia a mínima ideia de que ela estava grávida quando fugiu. Tens a certeza?
─ Tenho, lembro-me perfeitamente!
─ Isso quer dizer que tenho um filho com ela.
─ Pois, tudo indica que sim.
─ Só não sei quem ele é nem onde pára.
─ Mas agora temos uma boa pista para os encontrarmos, não?
─ Talvez…
─ O que pensas fazer?
─ Ir a Pamplona com a Luísa a pretexto de visitar a Rita.
─ Estou a ver. Eu também gostaria de ir!
─ Naturalmente, poderás ir connosco.
─ Mas antes podíamos fazer outra coisa.
─ O quê?
─ Tens o contacto MSN do Francisco?
─ Tenho.
─ Digitalizávamos essa fotografia e enviávamo-la a ele para mostrar à mãe.
─ Ah e logo ficaríamos a saber… Mas prefiro ir lá pessoalmente. Só se quiseres tu fazer isso, mas, nesse caso, depois não me contes nada, quero viver a emoção ao vivo e a cores.
─ Bom, já consegues sorrir! Quando me apareceste, vi-te bem preocupado, com cara de gravidade.
─ Estava e estou ainda, mas desabafar contigo fez-me bem.
─ Mas se não for ela não terás emoção nenhuma a não ser a desilusão. E se soubermos primeiro que é ela isso não nos tira a emoção de a revermos. Acho que, pelo contrário, iremos emocionados o caminho todo.
─ Talvez tenhas razão, mas então faz tu isso. Eu envio-te a foto digitalizada.
─ Só que, antes de irmos a Pamplona, temos de apanhar o Victor. A polícia tem pressa porque descobriu que faz parte de uma rede.
─ Acho bem.
─ Ficas para jantar e eu ponho-te ao corrente do plano para apanhar o Victor e a preparação da Inês para entrar em acção.
─ Aceito com muito prazer, mas não quero chegar muito tarde a casa que amanhã irei buscar Luísa ao comboio.
Entretanto, em casa, Luísa preparava o saco de viagem quando o telefone tocou:
─ Mãezinha, estás boa? Por aqui estamos bem.
─ Sim, minha querida! Amanhã vou passar uns dias com o Eduardo. Não te preocupes comigo.
Fez-se um silêncio e passados segundos Rita voltou a falar.
─ Pede ao Eduardo se te dá o contacto da amiga escritora. Adorei o livro dela e queria felicita-la. Não te esqueças.
─ Sim, meu amor, fica descansada!
Continua...