Virtual Realidade Parte 149

Como hipnotizada, Cristina ouviu a narrativa de Eduardo e Sara sobre a fatídica manhã em que Victor, o marido, perecera na perseguição policial.
O namorado, preocupado com a sua reacção, esteve o tempo todo abraçado a ela.
─ Lamento muito Cristina, ninguém aqui desejaria a morte a um ser humano, apesar dos crimes que cometeu! ─ disse Eduardo no fim. ─ Também não fiquei feliz com o que lhe aconteceu, mas quem comete actos ilícitos corre grandes riscos e a polícia fez o que costuma em casos semelhantes.
Fez-se um silêncio até que ela respondeu amargurada:
─ Eu também não culpo ninguém a não ser a ele mesmo. Obrigada a todos e desculpem-me, preciso de ficar um pouco sozinha!
─ Nem eu, amor? ─ perguntou Rui carinhosamente.
─ Sim, vem comigo, por favor!
Saiu da sala, como um ciclone num dia de grande tempestade em que o mundo parece desabar, o coração destroçado pela dor e revoltada pela submissão de tantos anos, tentando, em vão, evitar as lágrimas que lhe caíam pelo rosto.
Faltava ainda o Daniel tomar conhecimento do que se havia passado e não fazia ideia de como reagiria. Aquele canalha, mesmo depois de morto, ainda os fazia sofrer.
Entrou no quarto de rompante e deixou-se cair sobre a cama num choro convulsivo.
O namorado puxou-a a si e acariciou-lhe os cabelos suavemente dizendo-lhe palavras de ternura ao ouvido.
Lentamente, Cristina foi-se acalmando.
─ Dorme um pouco, deixa a tua mente descansar, que eu velarei pelo teu sono.
Enroscada ao namorado fechou os olhos e acabou por adormecer.
Num sono agitado, flutuava numa tempestade de flores.
─ Pobre Cristina! ─ desabafou Luísa condoída pelo sofrimento da amiga.
─ Em breve recuperará. O Rui é muito carinhoso com ela, viste como não a largou um momento?
─ Sim, ele ama-a de verdade!
─ E o filho, já sabe? ─ perguntou Sara.
─ Pois, o pior ainda está para vir. Não sei como vai ser a reacção do Daniel, quando souber. Ele já vem a caminho, estava em viagem com o namorado. Quem lhe vai dizer?
─ Ele sabia alguma coisa sobre aquilo em que o pai estava envolvido? ─ perguntou Eduardo.
─ Não, não sabia! ─ respondeu Luísa.
─ Então vamos ter de começar por aí a contar-lhe tudo. ─ sugeriu Eduardo.
─ Sim, tem de ser. ─ anuiu Luísa.
─ Estaremos aqui todos para lhe dar apoio e força. ─ disse Sara
─ Claro que sim. Obrigada, amiga, pela preciosa ajuda.
─ Enquanto a Cristina recupera, nos braços do namorado, e o Daniel não chega, tenho outra coisa para te contar. ─ disse Eduardo dirigindo-se a Luísa com ar misteriosamente apreensivo.
─ É bom ou mau? Pela tua cara… deixas-me preocupada, amor!
─ É uma coisa maravilhosa!
─ Então! ...
─ Descobri que tenho um filho!
─ Deixa-me adivinhar, o Francisco!
─ Ele mesmo.
─ Tens a certeza?
─ Temos ─ respondeu indicando Sara com o olhar.
─ Fiquem os dois que eu vou espreitar o mar. ─ disse a escritora, imaginando que eles gostariam de ficar sós naquele momento de revelações tão importantes, até para o futuro de ambos.
─ Podes perfeitamente ficar ─ exclamou Eduardo. ─ Tu és uma amiga, já sabes de tudo e ajudaste-me a descobrir!
─ Por isso mesmo, já não preciso de ouvir. ─ respondeu Sara a sorrir ─ Eu já volto.
─ Como queiras então!
Sara, sorrateiramente, saiu da sala e foi até ao jardim. Os momentos a seguir seriam unicamente dos dois.
─ O Francisco, mas isso é uma felicidade muito grande para mim também! Conta-me então como soubeste! ─ pediu Luísa.
─ Eu sabia que ias ficar feliz por mim e por ti. Afinal também já gostavas dele como de um filho.
─ É verdade.
Eduardo expôs com todos os pormenores, o caminho que os tinha levado a descobrir o paradeiro de Mariana e a paternidade de Francisco.
─ A Sara foi fundamental na descoberta e hoje, para mim, foi um dia duplamente marcante: estou feliz por termos resolvido o problema da Inês e por ter descoberto que Francisco é meu filho.
─ Ela e as fotografias que o Francisco tirou por cá. Viste como eu já tinha avançado hipóteses nesse sentido?
─ Nunca quis acreditar, eu com um filho! Agora tenho um filho, sou pai! ─ gritou de júbilo, erguendo-se do sofá.
Depois sentou-se de novo, comovido, os olhos rasos de água.
─ Também estou feliz amor, é maravilhoso! Nós realmente achávamos vocês os dois com muita coisa em comum, quem diria!
─ Mas tu que tens acompanhado a minha vida há uns tempos para cá e que sabes tudo de mim, já viste bem o que me aconteceu?
─ Pois. Eles lá ainda não sabem de nada, pois não?
─ Onde, quem?
─ Em Pamplona.
─ A Mariana só sabe da irmã.
─ Mas, naturalmente, terão de saber! O que pensas fazer?
─ Claro, amor! A Mariana vem cá ver a irmã brevemente e depois veremos como lhe vou aparecer. A Sara encaminhará as coisas preparando-a antecipadamente para se encontrar comigo. Depois, a parte mais fácil será contar à Rita e ao Francisco e, para isso, talvez tenhamos de ir a Espanha porque quero estar presente no momento em que ele souber.
─ O meu coração apreensivo, tem uma pergunta para te fazer, mas não quero que me leves a mal!
─ Qual amor?
─ Como vai ser quando te vires na presença do grande amor da tua vida? ─ perguntou receosa.
─ Ora, era isso, tontinha?
─ Era!
─ O grande amor da minha vida, agora és tu! O outro já passou há muito, deixando-me apenas uma terna e dolorosa recordação.
─ E um filho…
─ O filho é a única coisa que não se apagará jamais. Estou seguro do meu amor por ti, fica tranquila! ─ acrescentou, beijando-a.
─ Desculpa, amor, eu confio em ti! ─ disse, abraçando-o contra o peito.
Sara entrou na sala e, ao ver aquele enternecedor quadro, sorriu intimamente feliz pelos dois. Sabia que tinha chegado tarde na vida amorosa de Eduardo mas tinha a certeza absoluta de que a amizade estaria sempre presente entre eles.
Sorridente aproximou-se, depois de ter sido notada, e foi convidada a entrar naquele amplexo pelos braços que se abriram à sua chegada.
─ Estou feliz também por ter reencontrado a sua irmã.
─ Tenho que agradecer à Luísa por isso, já que precipitou os acontecimentos dando o meu número à Rita.
─ Foram mais as fotografias que o Francisco tirou, depois ela pediu-me o número…
─ De qualquer modo… A vida é um romance em que cada um escreve o papel da sua personagem.
─ O mais estranho é que os papeis se encaixam, por vezes, tão perfeitamente, que parecem ter sido escritos por uma única cabeça. ─ notou Eduardo. ─ Como pode isso acontecer?
─ Agora vamos deixar que as coisas se componham para o lado da Cristina. Depois havemos de nos reunir todos para comemorar o desfecho da nossa … obra literária. ─ sugeriu Luísa.
─ Sim, temos de pensar nisso! Para a semana vem a minha irmã e já poderemos combinar alguma coisa.
Naquele momento Rui e Cristina reaparecem na sala e ficaram a saber a novidade.
Os amigos abraçaram-se fortemente comovidos pelo sonho que acabava de ser realizado.
─ Parabéns Eduardo, estou muito contente por ti! ─ disse Cristina .
─ Obrigado! Já estás mais conformada?
─ Preciso de mais tempo, mas já me aguento. ─ respondeu com um sorriso ainda débil.
─ Estamos cá para te ajudar no que for necessário.
─ Eu sei, meu amigo, eu sei!
Naquele momento, Daniel entrou na sala de jantar, acompanhado do namorado.
A mãe abraçou-se a ele a chorar.
─ O que se passa aqui, mamã? Porque estás a chorar?
─ O teu pai… ─ começou a dizer entre soluços.
Eduardo, vendo que ela não conseguia continuar, pôs amigavelmente a mão no ombro do rapaz e, com a ajuda de Sara, pô-lo ao corrente das investigações que tinham levado à tentativa de captura do pai e de como esta havia terminado.
À medida que ia ouvindo a narração, o rosto dele ia tomando sucessivas expressões de surpresa, de repugnância, de ódio, mas, quando soube que o pai havia morrido, sentiu um vazio dentro de si e abraçou de novo a mãe a chorar.
Continua...