Virtual Realidade Parte 142

Na ausência do filho, Mariana e Juan, haviam passado as festas juntos e aproveitado para fazer planos de vida em comum.
Emília, Rita e Francisco chegaram ao fim do dia e a mãe de Francisco tinha preparado o jantar para todos. Emília pediu desculpa de não aceitar e quis ir directamente para casa, queixando-se de uma dor de cabeça.
Durante a refeição, tanto Francisco como a namorada, não pararam de falar sobre o que tinha acontecido naqueles dias de férias em Portugal. Terminada a refeição passaram para a sala de estar e continuaram a colocar a escrita em dia.
A alegria de Mariana pelo regresso do filho, feliz com a namorada, tornou-se inquietação quando ele lhe disse:
─ Sabes uma coisa Mariana? Tens de conhecer a mãe da Rita, é uma pessoa fantástica como tu. Vais adorá-la.
A mãe limitou-se a sorrir e Francisco continuou:
─ Sabes que estava lá uma pessoa que tinha muitas semelhanças contigo!
─ Ah sim?! ─ inquiriu incrédula, sem perceber se o filho falava a sério ou a brincar.
Rita sorriu percebendo a quem o namorado se referia.
─ É verdade, não é amor? ─ explicou pedindo o testemunho da namorada.
─ Sim é verdade! Agora que falas nisso, acho que sim. ─ corroborou Rita.
─ Não me digam que foi a minha irmã gémea! ─ respondeu Mariana a rir, pensando que era tudo brincadeira deles.
─ É verdade, tu tens ou tinhas uma gémea, já me falaste nela. Quem sabe se não era mesmo! Como era o nome?
─ Estás a brincar comigo.
─ Não, mamã, é verdade!
─ De facto… ─ confirmou a namorada.
─ Como se chamava a tua mana?
─ Sara.
Ante a resposta da mãe, Francisco a Rita trocaram um olhar de quem estava a pensar na mesma coisa e ficaram calados por momentos.
─ Então, não dizem nada? ─ perguntou a mãe. ─ pelos vossos rostos a tal senhora parecida comigo também se chama Sara, é?
─ Pois é, mãezinha!
─ E acham que pode ser a minha irmã? Eu não sei dela há muitos anos e vocês, de repente, descobriram-na. Ah, isso só acontece nas novelas, meu filho!
─ Eu não afirmei que o fosse, mas que é uma enorme coincidência, lá isso é!
─ Há muitas pessoas parecidas sem serem nada umas às outras e Sara é um nome relativamente comum.
─ Também aparenta ter a mesma idade. ─ acrescentou Rita timidamente, sem dar grande valor ao que dizia porque as mulheres aparentam a idade que querem.
─ Mas, mãe, pensa um bocadinho na hipótese de ser a tia Sara. Não gostarias de a voltar a ver?
─ Claro que sim, filhote, seria uma alegria muito grande! Éramos muito chegadas. Conta-me mais dela! ─ pediu Mariana, sentindo nascer lá do fundo do seu passado uma remota esperança.
─ Muito simpática, escritora, tem vários livros publicados. Ofereceu um à Rita como prenda de aniversário e outro à mãe.
─ Como é que ela foi convidada para os teus anos, ─ perguntou a mãe de Francisco dirigindo-se à namorada ─ é amiga da família?
─ Não, não a conhecíamos. Foi o Eduardo que a trouxe.
─ É o namorado da mãe da Rita. ─ explicou Francisco. ─ é amiga dele, conheceram-se na Internet.
─ Eduardo, o mesmo nome do teu pai. Foi quem te foi buscar à estação não foi?
─ Foi e também me lembrei disso apenas pelo nome.
─ Já que estamos em maré de coincidências, também me vais dizer que é ele! ─ Sorriu Mariana.
─ Sobre isso não tenho qualquer pista e Eduardos também há muitos, mas se calhar até nem me importava que fosse. Pareceu-me uma excelente pessoa. De qualquer modo talvez venhamos a fazer parte da mesma família.
─ Que o meu filhote era bom em arquitectar prédios eu sabia, agora em arquitectar enredos…
─ Se eu vir que a arquitectura não dá dedico-me a escrever e pedirei umas lições à tia Sara. Ah, ah, ah!
─ E as fotografias que tiraste? ─ lembrou Rita de repente.
─ É verdade, que distraído! Vamos ver isso já e tiram-se as dúvidas a limpo.
Francisco ligou o portátil e descarregou as fotografias da câmara para o disco rígido do computador.
Daí a pouco começaram a vê-las e o filho ia explicando à mãe as imagens, à medida que elas apareciam no monitor.
─ Olha, aí tens a Sara!
Mariana olhou para o monitor e os olhos dela arregalaram-se: na sua frente estava a irmã gémea perdida por tantos anos, mas reconhecê-la-ia em qualquer lugar por muito sofisticada que fosse.
─ S…A…R…A ─ soletrou num suspiro, passados breves segundos.
─ É ela mãezinha, é a tua irmã?
─ Sim, é ela! Não tenho dúvidas.
Saiu da sala, apressadamente, e regressou trazendo um cordão.
─ Vejam esta fotografia! ─ convidou abrindo o medalhão pendurado no cordão ─ A nossa mãe ofereceu-nos um cordão a cada uma quando fizemos dezoito anos. A Sara recebeu um igual. Foi a única coisa de valor que trouxe naquele dia em que os deixei. Valor material porque o meu tesouro eu trazia-o no meu ventre. ─ disse beijando o filho.
─ Olha mais!
E à medida que as fotos iam passando defronte dos seus olhos, era o passado que ressuscitava. Em flashes reviveu o tempo do colégio, o sofrimento das duas com a separação dos pais, a união entre elas e, anos mais tarde, a separação quando a irmã foi para dama de companhia de uma condessa.
─ Ritinha, por favor, telefona à tua mãe a pedir o contacto da minha irmã!
─ Calma, meu amor! ─ aconselhou Juan agarrando-lhe as mãos para a confortar. ─
Acho que tens que pensar bem nas medidas a tomar. Passaram-se muitos anos, vai ser um choque para ambas.
─ Tens razão. ─ anuiu Mariana enxugando uma lágrima de esperança.
─ Este aqui é o Miguel, sobrinho da Sara.
─ O Miguelito, filho do meu irmão mais velho. Lembro-me dele.
─ É então meu primo! ─ concluiu Francisco emocionado. ─ De repente, a minha família ficou maior.
─ Sim, é verdade!
─ Só faltava… ─ na presença de Juan, Francisco hesitou, calando-se.
─ Vamos ver as restantes fotos. ─ propôs Rita, percebendo a hesitação do namorado e evitando assim as perguntas.
Passaram mais umas fotografias de conjunto e apareceu um grande plano.
─ É o Eduardo. ─ referiu Rita.
─ Este é que é o tal Eduardo?
─ Sim! ─ confirmou Francisco.
─ É um belo homem, mas eu não gosto da barba. ─ riu Mariana, virando-se para o namorado para ver o efeito que o elogio ao outro tinha produzido nele.
─ Simpatizei bastante com ele. Tivemos oportunidade de trocar impressões e vi que era um homem de ideias avançadas, e mente aberta ao futuro. Não vê o mundo através dos preconceitos do passado.
─ Vejo que te impressionou favoravelmente.
─ Bastante. Não esperava encontrar alguém naquela idade com um espírito muito mais novo do que o de muitos colegas meus, embora ele ainda seja novo. Só lamento não ter podido falar mais com ele. Sabe muitas coisas e sabe dizê-las, como quem não tem provas do que afirma, sem se armar, mas, ao mesmo tempo, com a segurança de quem sabe o que diz.
─ Fui eu que te roubei o tempo, ─ disse Rita a brincar ─ não foi, amor?
─ Pois foste! ─ respondeu ele, aproximando-se da namorada e dando-lhe um beijo.
─ Vais ter outras ocasiões para conviver com ele, com certeza. ─ animou a mãe ─ De qualquer modo não te posso dizer que seja o teu pai. Ele não usava barba.
Acabaram de ver as fotografias e Francisco desligou o computador.
─ Temos também uma novidade para te contar. ─ disse Juan.
─ Então contem, que precisamos de ir dormir, embora amanhã seja sábado e eu não vá trabalhar!
─ Em poucas palavras: eu e o Juan decidimos juntar os trapinhos.
─ Fizeram muito bem e fico muito feliz pelos dois. É tudo? ─ perguntou Francisco, abrindo a boca de sono.
─ É o principal. Depois contaremos os pormenores.
─ Ah, a Rita dorme cá hoje, o que achas mamã?
─ Oh, filho, eu não acho nada! Vocês é que sabem. ─ e dirigindo-se a Rita tomou-lhe as mãos e disse: ─ Tenho todo o gosto em te ter na minha casa. Fica sempre que quiseres. Se os dois estão de acordo, por mim tudo bem. Só exijo que sejam felizes.
─ Obrigada!
Quando o filho se retirou para o quarto com a namorada, Mariana desabafou com Juan:
─ Como é bom ver os nossos filhos a crescer para o amor!
─ É verdade amor! Vamos dormir e amanhã pensas com calma como entrar em contacto com a tua irmã.
Mariana adormeceu nos braços do namorado.
Enquanto dormia, tudo lhe passou pela cabeça: viu-se a si mesma, em pequena, deixada no colégio pela mãe, a gritar que não a deixasse, e a gémea, mais corajosa, a pegar-lhe na mão e a dizer-lhe “estou aqui”; viu-se numa quinta e o neto da patroa a dizer-lhe que a amava muito, a patroa a correr com ela e a chamar-lhe nomes feios; depois a gravidez e a rejeição pelos pais, o abandono nas ruas da amargura e do desespero.
E debatia-se agitada, acabando por acordar o companheiro.
─ Acorda, amor, acorda! ─ Juan beijou-lhe o cabelo e a face e ela aninhou-se nele.
Suavemente abriu os olhos e balbuciou:
─ Tive um pesadelo. Costumava ter muitas vezes este pesadelo mas há muito que não me acontecia.
Juan limitou-se a afagar-lhe os cabelos.
─ Sabes amor, acho que fiz tudo errado. Nunca devia ter deixado passar tantos anos, foram perto de trinta. Gostaria de ir a Portugal ver a minha irmã, vens comigo?
─ Com todo o prazer minha doce Mulher, mas tenho de escolher os dias.
Continua...