Virtual Realidade Parte 79

Cristina chegou a casa e recolheu-se na sua salinha, a tarde a meio, depois daquele dia bem passado, apesar do susto pelo aparecimento do marido no restaurante onde almoçara com os amigos, em S. Pedro de Moel. Rui tinha-se despedido e Eduardo passaria a noite em casa de Luísa. Sentou-se e começou a meditar nos nicks que o Eduardo tinha referido. Com algum esforço, recordou certas situações que já tinha vivido nos chats do MIRC e no MSN, mas não conseguia lembrar-se de nada de concreto, embora continuasse convencida de que já tinha visto aquele nick, «gato_cinzento», em algum lugar. Correu para o computador e verificou os seus logs: o nick do Rui destacava-se dos restantes e «quando» era o seu nick. De repente, os seus olhos pousaram num texto com o título «gato_cinzento» e, ansiosa e receosa ao mesmo tempo, abriu o log e leu. Não poderia haver a menor dúvida: aquele nick era do Victor; recordava-se agora daquela conversa que tivera com ele, ainda no início da missão dele no estrangeiro, alguns meses atrás. “Mas será ele que se anda a meter com aquela menina, a Inês?” Esse pensamento causava-lhe tanta repugnância que, mesmo sabendo que o marido não prestava e que era capaz dos piores actos, se recusava a acreditar nessa possibilidade. “É demasiado hediondo para ser verdade e, no entanto tudo parece indicar…a não ser que…A verdade é que nunca mais me apareceu com esse nick e pode tê-lo deixado cair. Certamente foi isso e agora é outro que o tem registado e o usa.” ─ pensava, mantendo a crença de que o pai do seu filho fosse incapaz de tamanha ignomínia.
Mas a esperança que estes pensamentos colocavam na alma de Cristina, não era bastante para diminuir o estado de preocupação e estupefacção em que ficara com a descoberta.
Porque, a confirmar-se aquela actuação do marido, verificava que o monstro com quem tinha partilhado o melhor da sua vida era muito pior do que algum dia poderia ter imaginado. Já nem os maus-tratos que sempre lhe tinha dado contavam. O lembrar-se que muitas vezes tinha deixado o filho pequeno com ele, dias inteiros, arrepiava-a e desejava ardentemente, no mais fundo do seu coração, que ele estivesse inocente daquela suspeição.
O Eduardo tinha contado situações arrepiantes, investigadas pela Sara, sobre o que aquele e outros nicks andavam a fazer on-line.
─ Não, não pode ser!!! ─ gritou Cristina bem alto, ao lembrar-se disso, enquanto mal via o monitor, os olhos rasos de lágrimas..
─ O que é que não pode ser? Ficaste histérica gritando sozinha?
Cristina deu um salto na cadeira e apressou-se a limpar os olhos, ao reconhecer a voz do marido atrás de si.
Ele tinha entrado sorrateiramente e olhava por cima do ombro da mulher para ver o que ela fazia no computador. Cristina não lhe respondeu, mas sentiu-se invadida, de repente, por uma enorme onda de segurança interior. Sentia-se capaz de enfrentar o mundo inteiro se fosse necessário, porque a razão e a verdade estavam do seu lado.
─ Porque estás tão nervosa? O almoço com os teus amiguinhos fez-te mal? Eu bem te vi e só não fiz um escândalo no restaurante porque o nosso filho estava presente e não tem culpa de ter uma mãe leviana como tu.
Victor saiu repentinamente da sala, batendo com a porta e entrando na casa de banho. Cristina tinha vontade de vomitar, só de pensar que poderia estar em presença dum pedófilo a viver na mesma casa que ela. Apesar de tudo, sentia uma estranha calma porque sabia que não estava sozinha. O amor do Rui e a amizade da Luísa e do Eduardo davam-lhe profunda força moral, até então desconhecida, e tornavam-na capaz de enfrentar o pior. Foi para o seu quarto, precisava de pensar, relaxar. Estendeu-se na cama olhando fixamente o tecto do quarto e, no desenrolar dos seus pensamentos, ocorreu-lhe abrir a gaveta da mesinha de cabeceira do Victor, onde estava uma agenda; com a pulga atrás da orelha, levantou-se e foi fechar a porta do quarto com uma volta de chave, para não correr o risco de ser surpreendida. Tirou a agenda, virou algumas páginas e foi lendo. Diversos nicks, entre eles os que o Eduardo tinha citado e o endereço de vários chats, um deles era IRC. Um username com senha no rodapé de uma página chamou-lhe a atenção, gato_cinzento. A seguir a gato_cinzento tinha, dentro de parêntesis, escrito as palavras «esmeralda» e «anjo_selvagem» separadas por vírgulas. “O que quer isto dizer? Será «esmeralda», ou «anjo_selvagem» o nick da Inês?” ─ pensou.
Todos os sinais que se encontravam ali, a pairar ao seu redor, pareciam dar corpo a uma acusação evidente. Com um pouco de sorte entraria no computador do Victor e veria se tinha deixado os logs.
Cristina arrumou a agenda na mesma posição, destrancou a porta do quarto e deitou-se de novo sobre a cama, mas antes fechou as persianas. Não queria enfrentar Victor. Ouviu-o entrar no quarto, pegar nas suas coisas e sair sem dizer nada. Acendeu o candeeiro, abriu a gaveta da mesinha de cabeceira e verificou que a agenda tinha desaparecido.
Angustiada, cobriu o rosto com as mãos balançando-o. Estava um passo de um ataque de choro e a sua revolta era tão grande que começou a desejar que fosse tudo verdade e que o canalha do marido fosse desmascarado e pagasse por isso. Só lamentava o filho.
Tomou um calmante para adormecer. Entre sonhos e visões acabou por ter um pesadelo. Aparecia-lhe um rosto de menina assustada, com os olhos dilatados pelo medo. Umas mãos tocavam no seu corpo, introduzindo-lhe objectos; a criança chorava, ele ria…sem… parar. Cristina queria avançar, socorrer a menina em perigo, mas o rosto de Victor aparecia na sua frente, implacável e sentiu-se paralisada, também ela com muito medo. Ofegante, acordou em suores, o coração batendo aceleradamente; correu para o chuveiro e caiu num choro convulsivo, antes de conseguir abrir a água.
Uma hora depois, mais calma, foi à varanda, respirou fundo uma vez, depois outra. Oxigénio para desanuviar e acalmar o cérebro. Reflectindo, achou melhor ligar à Luísa.
O telefone tocava…. Mas ninguém atendia. Deixou mensagem no voice-mail para ela lhe ligar com urgência.
Como iria Luísa atender o telefone, se naquele momento, no seu miradouro eleito, estava nos braços do seu amado? Tinham vindo observar o entardecer, o sol descia sobre o mar, os silêncios beijavam-se…foram interrompidos pelo telemóvel de Luísa. Olhou-o de soslaio, indecisa sobre se devia atender, quando viu o nome de Cristina.
─ O que aconteceu, amiga? ─ perguntou Luísa, aflita.
─ Nada de grave.
─ Tu estás bem?
─ Estou. Era por causa dos nicks que o Eduardo referiu: tenho novidades.
─ Então é melhor ser ele a ouvir.
─ Sim, é.
Luísa passou o telemóvel ao Eduardo. Quando Cristina acabou desligaram e Luísa, vendo Eduardo parado a pensar, perguntou:
─ Então, amor?!
─ Nem te passa pela cabeça o que a tua amiga acaba de me contar!
─ O que foi, amor? Conta logo! Não vês que estou ansiosa por saber?
─ Segura-te que vais ter um choque! ─ aconselhou Eduardo a sorrir
─ Tu não me assustes!
─ O marido da Cristina, Victor, não é?
─ Sim
─ Tudo parece indicar que é ele que anda a meter-se com a minha Inês.
─ Estás a brincar?!
─ Claro que não, nem sequer o conheço! Ouve tudo o que a tua amiga acabou de me dizer.
Quando Eduardo acabou de contar, Luísa, abismada, perguntou:
─ E agora o que pensas fazer?
─ Informar a Sara de tudo o que acabei de saber e avisá-la de que antes de avançarmos quero ter uma conversa com a Cristina, porque afinal é do marido dela que se trata.
─ Mas ela há muito que não tem consideração nenhuma por ele e quer o divórcio.
─ Mesmo assim quero que ela me diga que podemos avançar.
─ Sim, tens razão! Devemos-lhe isso. Mas vamos esquecer um pouco esse assunto. Tenho um convite a fazer-te.
Mas a esperança que estes pensamentos colocavam na alma de Cristina, não era bastante para diminuir o estado de preocupação e estupefacção em que ficara com a descoberta.
Porque, a confirmar-se aquela actuação do marido, verificava que o monstro com quem tinha partilhado o melhor da sua vida era muito pior do que algum dia poderia ter imaginado. Já nem os maus-tratos que sempre lhe tinha dado contavam. O lembrar-se que muitas vezes tinha deixado o filho pequeno com ele, dias inteiros, arrepiava-a e desejava ardentemente, no mais fundo do seu coração, que ele estivesse inocente daquela suspeição.
O Eduardo tinha contado situações arrepiantes, investigadas pela Sara, sobre o que aquele e outros nicks andavam a fazer on-line.
─ Não, não pode ser!!! ─ gritou Cristina bem alto, ao lembrar-se disso, enquanto mal via o monitor, os olhos rasos de lágrimas..
─ O que é que não pode ser? Ficaste histérica gritando sozinha?
Cristina deu um salto na cadeira e apressou-se a limpar os olhos, ao reconhecer a voz do marido atrás de si.
Ele tinha entrado sorrateiramente e olhava por cima do ombro da mulher para ver o que ela fazia no computador. Cristina não lhe respondeu, mas sentiu-se invadida, de repente, por uma enorme onda de segurança interior. Sentia-se capaz de enfrentar o mundo inteiro se fosse necessário, porque a razão e a verdade estavam do seu lado.
─ Porque estás tão nervosa? O almoço com os teus amiguinhos fez-te mal? Eu bem te vi e só não fiz um escândalo no restaurante porque o nosso filho estava presente e não tem culpa de ter uma mãe leviana como tu.
Victor saiu repentinamente da sala, batendo com a porta e entrando na casa de banho. Cristina tinha vontade de vomitar, só de pensar que poderia estar em presença dum pedófilo a viver na mesma casa que ela. Apesar de tudo, sentia uma estranha calma porque sabia que não estava sozinha. O amor do Rui e a amizade da Luísa e do Eduardo davam-lhe profunda força moral, até então desconhecida, e tornavam-na capaz de enfrentar o pior. Foi para o seu quarto, precisava de pensar, relaxar. Estendeu-se na cama olhando fixamente o tecto do quarto e, no desenrolar dos seus pensamentos, ocorreu-lhe abrir a gaveta da mesinha de cabeceira do Victor, onde estava uma agenda; com a pulga atrás da orelha, levantou-se e foi fechar a porta do quarto com uma volta de chave, para não correr o risco de ser surpreendida. Tirou a agenda, virou algumas páginas e foi lendo. Diversos nicks, entre eles os que o Eduardo tinha citado e o endereço de vários chats, um deles era IRC. Um username com senha no rodapé de uma página chamou-lhe a atenção, gato_cinzento. A seguir a gato_cinzento tinha, dentro de parêntesis, escrito as palavras «esmeralda» e «anjo_selvagem» separadas por vírgulas. “O que quer isto dizer? Será «esmeralda», ou «anjo_selvagem» o nick da Inês?” ─ pensou.
Todos os sinais que se encontravam ali, a pairar ao seu redor, pareciam dar corpo a uma acusação evidente. Com um pouco de sorte entraria no computador do Victor e veria se tinha deixado os logs.
Cristina arrumou a agenda na mesma posição, destrancou a porta do quarto e deitou-se de novo sobre a cama, mas antes fechou as persianas. Não queria enfrentar Victor. Ouviu-o entrar no quarto, pegar nas suas coisas e sair sem dizer nada. Acendeu o candeeiro, abriu a gaveta da mesinha de cabeceira e verificou que a agenda tinha desaparecido.
Angustiada, cobriu o rosto com as mãos balançando-o. Estava um passo de um ataque de choro e a sua revolta era tão grande que começou a desejar que fosse tudo verdade e que o canalha do marido fosse desmascarado e pagasse por isso. Só lamentava o filho.
Tomou um calmante para adormecer. Entre sonhos e visões acabou por ter um pesadelo. Aparecia-lhe um rosto de menina assustada, com os olhos dilatados pelo medo. Umas mãos tocavam no seu corpo, introduzindo-lhe objectos; a criança chorava, ele ria…sem… parar. Cristina queria avançar, socorrer a menina em perigo, mas o rosto de Victor aparecia na sua frente, implacável e sentiu-se paralisada, também ela com muito medo. Ofegante, acordou em suores, o coração batendo aceleradamente; correu para o chuveiro e caiu num choro convulsivo, antes de conseguir abrir a água.
Uma hora depois, mais calma, foi à varanda, respirou fundo uma vez, depois outra. Oxigénio para desanuviar e acalmar o cérebro. Reflectindo, achou melhor ligar à Luísa.
O telefone tocava…. Mas ninguém atendia. Deixou mensagem no voice-mail para ela lhe ligar com urgência.
Como iria Luísa atender o telefone, se naquele momento, no seu miradouro eleito, estava nos braços do seu amado? Tinham vindo observar o entardecer, o sol descia sobre o mar, os silêncios beijavam-se…foram interrompidos pelo telemóvel de Luísa. Olhou-o de soslaio, indecisa sobre se devia atender, quando viu o nome de Cristina.
─ O que aconteceu, amiga? ─ perguntou Luísa, aflita.
─ Nada de grave.
─ Tu estás bem?
─ Estou. Era por causa dos nicks que o Eduardo referiu: tenho novidades.
─ Então é melhor ser ele a ouvir.
─ Sim, é.
Luísa passou o telemóvel ao Eduardo. Quando Cristina acabou desligaram e Luísa, vendo Eduardo parado a pensar, perguntou:
─ Então, amor?!
─ Nem te passa pela cabeça o que a tua amiga acaba de me contar!
─ O que foi, amor? Conta logo! Não vês que estou ansiosa por saber?
─ Segura-te que vais ter um choque! ─ aconselhou Eduardo a sorrir
─ Tu não me assustes!
─ O marido da Cristina, Victor, não é?
─ Sim
─ Tudo parece indicar que é ele que anda a meter-se com a minha Inês.
─ Estás a brincar?!
─ Claro que não, nem sequer o conheço! Ouve tudo o que a tua amiga acabou de me dizer.
Quando Eduardo acabou de contar, Luísa, abismada, perguntou:
─ E agora o que pensas fazer?
─ Informar a Sara de tudo o que acabei de saber e avisá-la de que antes de avançarmos quero ter uma conversa com a Cristina, porque afinal é do marido dela que se trata.
─ Mas ela há muito que não tem consideração nenhuma por ele e quer o divórcio.
─ Mesmo assim quero que ela me diga que podemos avançar.
─ Sim, tens razão! Devemos-lhe isso. Mas vamos esquecer um pouco esse assunto. Tenho um convite a fazer-te.
Continua...