Virtual Realidade Parte 134

Depois de um duche rápido, Eduardo, exausto, deitou-se ao lado dela.
Luísa recebeu-o de braços abertos, toda a angústia dissipada já, apertando-o contra o peito nu, como se o quisesse subtrair do mundo introduzindo-o dentro da sua própria pele e guardando-o ali para sempre, de modo que fosse só seu e estivesse acessível a todo o instante em que necessitasse dele.
Não teve uma única palavra de queixa ou recriminação, mas Eduardo sentiu naquele abraço, mais intensamente do que por quaisquer palavras que a namorada pudesse ter proferido, todo o peso da angústia por que ela havia passado durante a sua prolongada ausência.
E, mais uma vez, lhe pediu desculpa beijando-a e mimoseando-a com carinhos.
─ Espero que me perdoes, amor, não tive como te avisar! Deixei o meu telemóvel em casa e ainda tentei ligar de um fixo, mas o teu estava ocupado e tinhas o telemóvel desligado.
─ Estava sem bateria e esqueci-me de o pôr a carregar.
─ Não se pode confiar nos telemóveis! ─ riu Eduardo.
Luísa não queria dizer nada de que viesse a arrepender-se e perguntou:
─ O que aconteceu afinal?
Eduardo começou a contar desde que tinham saído de casa.
─ Sara pediu-me para passar por um café. Queria tomar uma água com gás porque sentia o estômago pesado, como se não tivesse ainda feito a digestão. Disse-me que, desde o almoço, sentia uma ligeira indisposição.
─ E foram ao café?
─ Sim, levei-a ao café onde costumamos ir. Enquanto bebia a água em pequenos sorvos foi dizendo que adorou conhecer-te e à tua família e que tinha simpatizado com todos, principalmente com o Francisco.
Luísa ouvia atentamente o relato do namorado.
─ Estivemos no café só o tempo suficiente de ela tomar a água. Já no carro, sugeri que talvez lhe fizesse bem apanhar um pouco de ar. Ela concordou e parei o carro perto do farol; estávamos no penedo da saudade mais ou menos há uns dez minutos, quando ela me disse, aflita, que lhe apetecia vomitar. Notei-lhe o rosto muito pálido e disse-lhe que se vomitasse iria sentir-se aliviada.
Eduardo detestava ter que falar tudo tão pormenorizado, mas sabia que tinha que o fazer. Conhecia Luísa o suficiente para saber que ela tinha passado um mau bocado.
Continuou a narrativa, entrelaçando as mãos nas dela. Ela levou-as aos lábios e uma lágrima teimosa caiu sobre elas.
─ Depois levei-a a casa. Quando saiu do carro ia dobrada, com as mãos a apertar o abdómen, a contorcer-se com dores, e tive de a ajudar a entrar em casa. Esteve bastante tempo na casa de banho e voltou a vomitar. Quando saiu deitou-se no sofá e o rosto dela estava branco. Fiz-lhe um chá na tentativa de a ajudar a ficar melhor.
Luísa tinha-se mantido calada até ali quando perguntou:
─ Porque não ligaram para o sobrinho, ou não foram ao hospital?
─ Tem calma, amor! Enquanto esperava que aquilo passasse, liguei-te a primeira vez e o teu telefone de casa estava ocupado. Depois liguei para o teu telemóvel e estava desligado. As dores não amainavam e eu sugeri que ligasse ao sobrinho. Sara ligou-lhe mas a chamada ia para mensagens. Eu estava a ficar cada vez mais preocupado e não esperei mais, levei-a para o hospital de Leiria.
E já sabes como é, no hospital levam horas e uma pessoa ali ansiosa e inquieta. De vez em quando ia perguntar se havia notícias, mas eram sempre o mesmo: “Ainda está em observação!”. Entretanto já te tinha ligado e os telefones continuavam na mesma. Não ia sair de lá sem saber algo de concreto, nem deixá-la sozinha.
O Miguel quando chegou a casa e viu o meu bilhete, foi logo para o Hospital. Quando veio ter comigo já tinha estado ao pé da Sara.
Disse-me que a tia ia ficar internada, que o problema dela era uma gastroenterite.
Por isso as cólicas e pontadas no estômago e as dores na barriga, e a diarreia aguda.
Miguel agradeceu-me o meu cuidado e ajuda à tia e disse-me que viesse embora descansado.
─ Mas, gastroenterite porquê? A comida estava sã, mais ninguém se queixou.
─ Essas inflamações do estômago e do intestino tanto podem ser causadas por infecção bacteriana oriunda de comida deteriorada ou ter origem em vírus que andam por todo o lado.
─ Então foi com certeza viral, senão mais alguns de nós teriam ficado doentes e, até agora, mais ninguém se manifestou, felizmente!
─ Com certeza, amor! E aqui tens a história desta noite. E tira todas as suspeitas dessa linda cabecinha, que eu sei que as tiveste. ─ disse sorrindo.
Ela, no seu sorriso, sabia que ele estava a falar a verdade.
─ Quer dizer que estás sem dormir!
─ Pois estou, fofura, e bem preciso.
─ Desculpa, amor! E eu aqui a pensar só em mim e nas minhas preocupações! Dorme tranquilo que eu velarei pelo teu sono.
Tomada pelos remorsos, prometeu a si própria não se deixar consumir pelos ciúmes.
Abraçados, adormeceram.
Sandrine e Emília já se tinham levantado há muito tempo quando Luísa apareceu na cozinha, tendo deixado o namorado ainda a dormir profundamente.
─ Tu não sabes as horas, pois não? É uma hora da tarde. Acabámos de tomar um bom pequeno-almoço e não vamos precisar de almoçar.
─ Boa ideia. Farei o mesmo e vou depois dar uma volta à beira mar. O Eduardo precisa de dormir e não se vai levantar tão cedo. E creio que Rita e Francisco também não.
Sandrine e Emília olharam uma para a outra surpreendidas, interrogando-se mutuamente com os olhos.
Luísa fez de conta que não viu e continuou:
─ Esta noite acordei no meio de um pesadelo que parecia tão real… Àquela hora Eduardo ainda não estava
─ Mas o que aconteceu? ─ perguntou Sandrine.
Resumindo contou-lhes o que se tinha passado, omitindo o que ela tinha sofrido naquelas horas.
─ Bem, meninas, vou dar uma volta à beira mar, não me demoro.
─ Nem tomas o pequeno-almoço? ─ perguntou Sandrine.
─ Era para tomar, mas não me apetece. Tomem conta da casa.
Queria falar com a amiga o mais depressa possível, contar-lhe o que realmente tinha acontecido, antes que ela pudesse falar com mais alguém sobre o assunto.
─ Mas não vão hoje para casa do Eduardo?
─ Vamos; e vocês já decidiram se vão connosco?
─ Penso que não vamos, mas ainda temos que falar melhor uns com os outros. Ficaram coisas pendentes. Agora vou fazer uns telefonemas que preciso fazer.
─ E eu vou para o computador. ― Disse Emília, desejosa de encontrar o namorado.
─ Até logo.
Luísa saiu para o jardim. Um aroma intenso a maresia chegava às suas narinas. Fechou os olhos por momentos, usufruindo o momento. Sorriu para a cabana e seguiu em direcção à casa de Cristina.