Virtual Realidade Parte 145

─ Vens viver para minha casa enquanto esse sacana estiver à solta, ouviste? Não te quero mais lá sozinha com ele! ─ disse Luísa depois de saírem do hospital, num tom que não admitia réplicas.
Uma lágrima escorreu lentamente pelo rosto de Cristina que balbuciou:
─ Obrigada amiga! E o Daniel?
─ Vem também. Tens de lhe contar o que o pai te fez.
─ Não sei como te agradecer.
─ Agradeces-me sendo feliz. Sabes, ainda não resolveu nada, mas sinto-me melhor por termos denunciado esse energúmeno. Soube-me a uma pequena vingança.
─ Só ficarei completamente tranquila quando tiver a certeza de que nunca mais o verei na minha frente.
─ Pois naturalmente, pobre querida! Só tu sabes o que tens sofrido! Eu entendo isso. Agora passamos as duas pela tua casa e trazemos tudo o que necessitares.
Depois de ter falado com Luísa, Eduardo decidiu que seria melhor comunicar a Sara o sucedido.
O telefone tocou várias vezes, mas a chamada foi parar ao atendedor de chamadas.
Por volta das três da tarde, Sara regressou a casa exausta.
Tivera a sua reunião com a organizadora da convenção dos escritores, e ainda tinha passado pela delegacia para acertar os últimos detalhes da captura do Victor. Estava a precisar de um banho para relaxar.
Após o banho, Sara ligou o atendedor de chamadas, enquanto degustava uma sandes e um copo de sumo.
De entre as várias mensagens, sobressaiu uma com a voz de Eduardo que apenas dizia: «Liga-me assim que puderes! Um beijo. Eduardo.»
“Que estranho” ─ pensou Sara.
Por momentos, imagens do jantar da noite anterior evocaram-lhe o prazer que sentira na presença daquele homem na sua casa e a mente cedeu o lugar ao coração.
Eduardo era tão bom conversador ao vivo como havia sido durante o tempo em que falavam no IRC, sem ainda se conhecerem pessoalmente. Sempre extremamente correcto, de uma correcção que fazia parte intrínseca da sua personalidade e se manifestava espontaneamente.
Levantou-se ao mesmo tempo que as lágrimas lhe vinham, contidas, realçar o brilho dos olhos e, respirando profundamente, procurou pensar noutra coisa.
Tinha de ser prática e objectiva, havia coisa importantes a resolver.
Pegou no telefone e ligou a Eduardo que atendeu logo.
─ Então o que se passa? Deixaste-me apreensiva.
Quando ele acabou de contar, Sara gritou:
─ Grande canalha! Muito em breve vai ter o que merece, assim espero.
Sara informou-o de que no dia seguinte bem cedo iria para Aveiro. Os últimos detalhes seriam ajustados com a Inês e a polícia presentes. Teriam de ir ao computador dela fazer falar o Victor.
─ Irei buscar-te à estação e de seguida levo-te a casa do Pedro.
─ Ok, então não é preciso mais nada. Vou ter de desligar que tenho outra chamada em linha. Um beijo. Até amanhã!
Em Pamplona, em casa de Francisco, assim que Mariana acabou de marcar o número de Sara, o nível de ansiedade colocou nos quatro rostos, habitualmente serenos, uma máscara de dolorosa gravidade expectante em que os sentidos tensos, como que projectando-se para fora de si mesmos, se esforçavam por tentar descobrir quem apareceria do outro lado da linha, antes mesmo de qualquer voz se fazer ouvir.
O aparelho tremia na mão frágil de Mariana, mais ansiosa do que todos.
─ Ninguém atende ─ disse ao cabo de uns segundos que lhe pareceram uma eternidade.
─ Espera um pouco mais. ─ sugeriu Juan sentado a seu lado e segurando-a pelo ombro.
Aquela espera fazia subir a tensão mergulhada num silêncio que se adensava à medida que o tempo ia passando.
─ Estou, quem fala? ─ perguntou, finalmente, uma voz do outro lado da linha.
O coração de Mariana bateu com tanta força que parecia querer saltar-lhe do peito e impediu-a de falar de imediato.
Acabara de reconhecer aquela voz vinda de tão longe no tempo: era a voz da sua querida gémea perdida. Com o ouvido colado ao aparelho, Mariana fez sinal aos outros de que era ela.
Do outro lado a voz repetiu:
─ Sim, estou a falar com quem? Está aí alguém?
E, repentinamente, Mariana sorriu e, recuperando a fala, perguntou:
─ Eu por acaso não estou a falar com a Princesa dos Patos?
Do outro lado, os olhos de Sara ficaram marejados de lágrimas. Sabia que, actualmente, apenas uma pessoa no mundo lhe poderia fazer aquela pergunta, se fosse viva.
─ Sim, Menina do Campo, sou eu! ─ respondeu a custo com a voz embargada pela emoção. ─ Mariana, pois és tu, minha irmã querida!
─ Sim, sou eu! E tu a minha irmã Sara, finalmente! Ai que até me custa acreditar!
A avó materna havia-lhes dado aquelas alcunhas quando brincava com elas em meninas e essas alcunhas, porque só elas as conheciam, como uma senha e contra-senha secretas, identificavam-nas, perfeitamente, uma perante a outra.
Juan, Francisco e Rita olhavam uns para os outros e sorriam calados, testemunhando aquele encontro das duas irmãs ao fim de tantos anos, limitando-se a seguir as reacções de Mariana ao telefone e a emocionar-se com ela.
Os gritos de alegria, de um e outro lado, misturavam-se às lágrimas que corriam pelo rosto das duas gémeas, e isso foi tudo o que se ouviu no telefone de ambos os lados da linha durante largos minutos.
Na sala, Rita e Francisco abraçaram-se emocionados olhando a mãe, que Juan amparava, em silêncio, com um braço por cima dos seus ombros apertando-a contra si.
Não era todos os dias que um passado assim acordava, inesperadamente, aparecendo à tona das estratificações do tempo, depois de tantos anos adormecido, revelado por um arqueólogo desconhecido.
Num ápice, as perguntas de um lado e do outro começaram a atropelar-se numa urgência de recuperarem o tempo perdido, em que cada uma tinha ignorado o que se passava com a outra.
Ficaram ainda por muito tempo ao telefone e depois passaram ao computador para se poderem ver pela primeira vez ao fim de quase trinta anos.
O impacto foi grande e profundo para as gémeas. Os seus olhos sorriam envoltos numa névoa húmida de orvalho.
─ Como foi que me descobriste? ─ perguntou Sara a certa altura.
─ Através das fotografias que o meu filho trouxe agora de Portugal quando foi ao aniversário da namorada. Por uma felicidade também estavas lá e eu reconheci-te nas fotos. Depois o Francisco arranjou-me o teu contacto através de um tal Eduardo, que conheceu lá também, e eu arrisquei telefonar-te.
─ É verdade, eu estava lá! Sim o Eduardo… Então o Francisco é meu sobrinho! Só tens esse filho?
─ Nunca tive outro, porquê?
─ Por nada. Tanto que te procurei e foste tu que me encontraste!
Sara queria confessar que também ela já sabia da sua existência, mas isso significaria que teria de lhe dizer quem era aquele Eduardo e ela não se achava nesse direito. Agora tinha praticamente a certeza de que Francisco era filho de Eduardo, mas deixaria isso para ela descobrir depois, quando Eduardo fosse a Pamplona.
Queria tanto que, naquele momento, Eduardo estivesse ali para a abraçar e participar da sua felicidade, do seu sonho de esperança acabado de realizar, e que era também, certamente, o sonho dele, mas sabia que não podia fazer nada quanto a isso.
─ Precisamos de nos ver em breve! ─ disse Mariana ─ anseio por te abraçar
─ E vamos tirar dias inteiros só para nós duas, que temos muita conversa para pôr em dia! ─ concordou Sara. ─ Ai que bom vai ser!
─ Vou aí já na próxima semana, que antes não poderei! Depois virás comigo passar uns dias aqui em Pamplona.
─ Sim, sim! E nunca mais nos perderemos uma da outra!
─ Nunca mais!
Horas mais tarde, no seu quarto, Mariana suspirava calmamente de olhos fechados.
Continua...